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09/01/2023

Jornal Torrejano - Nº 1150 - Ano novo, tudo na mesma

Jornal Torrejano – Nº 1150 - 06/01/2023

Ano novo, tudo na mesma

Esta minha crónica de hoje no jornal Torrejano é a quinquagésima quinta. Atinjo com ela o mesmo número de anos da minha existência. Nasci na segunda metade da década de 60 do século 20, sete anos antes de 1974, mais coisa menos coisa. Lembro-me do dia 25 de Abril desse ano. Lembro-me de existirem lá por casa imensos folhetos e livros de índole politica/ideológica que, para grande desilusão minha, não tinham bonecos. E, o que lá estava escrito, ultrapassava a minha compreensão. Desinteressantes para o meu eu com 7 anos, portanto. Trazido pelo meu pai, o popular poster com a criança de cabelo encaracolado a enfiar um cravo no cano de uma espingarda, ficou colado na parede do meu quarto durante muitos anos, décadas. Nasci num tempo em que, pensar, era muito mal visto. Pensar diferente do estado, dava prisão. Estava em prática a adaptação de uma engenharia social da época do império romano: Panem et Circenses, o “pão e circo”. A versão do Estado Novo português era: Futebol Fado e Fátima, os três efes.

Talvez por ter passado já há algum tempo o meio século de existência, sinto legitimidade em escrever coisas como: “na minha altura, isto não era nada assim”. E de facto, não era. Não se podia pensar, muito menos revelar publicamente o pensamento. Hoje, teoricamente, nada nos impede de o fazer. Seria de esperar que a liberdade de pensamento e expressão conquistadas na revolução fossem exercidas continuamente dali em diante. Mas não. Ficou tudo na mesma. A mentalidade do português médio, procura desesperadamente por heróis salvadores. Quando os julgam encontrar, não admiram o seu carácter, os seus valores, o seu talento. Em vez, admiram e aplaudem o muito dinheiro que ganham. Primeiro efe verificado, Futebol. O efeito catalisador da engenharia social aplicada naqueles anos de ditadura, incutiu no cidadão uma postura de impotência perante o poder governante que, prevalece até hoje. Traduzido num fatalista: “eles são todos iguais” ou ainda pior: “eles é que estão lá, eles é que sabem”. Segundo efe verificado, o Fado. O estado laico, este estado, relativiza a pedofilia na igreja católica. Desvaloriza-a e, a reação exemplar que deveria ocorrer no imediato, parece atolada numa inércia paralisante, endémica de todos os aparelhos estatais. Terceiro efe verificado, Fátima.

Aparentemente nem o artigo 21 consegue despertar o português médio deste entorpecimento. Recentemente ficou bem ilustrado que, uma maioria absoluta, ferramenta ideal para concretizar projetos e operar mudanças fundamentais, serviu e serve, apenas para favorecer os amigos do partido. Apenas potenciou a corrupção e, confirmou que, apenas e só o vassalismo é o caminho para uma carreira de sucesso. As penalizações subsequentes são mero folclore. Confirmadas por um Sócrates estrela de debates televisivos, ou, um Relvas como consultor de ética, também em debate televisivo.

Assim na terra como no céu. Numa autarquia do mesmo país, o mesmo partido, a mesma maioria absoluta, os mesmos resultados. Igreja imiscuída na governação, apoio direto ou indireto aos amigos do partido, vassalismo recompensado. Confirmando o tal resultado da engenharia social anterior a 74, é que estes, a malta conhece. Os outros, que estão lá para Lisboa na Assembleia da Republica, estão longe, são anónimos, desconhecidos. Mas estes, estão aqui, sabemos quem são. Sabemos quem é a família, onde moram, que cafés e restaurantes frequentam. Andámos com eles na escola, cruzámo-nos com eles em contexto profissional, temos filhos que frequentaram o mesmo estabelecimento de ensino que os filhos deles, aconteceram contatos socias, mesmo que breves e pontuais. Mas no entanto, descaímos os ombros, colocamos os olhos no chão e, deixamos passar tudo em branco. Porque “eles é que sabem” e nós somos nada. Nenhum cidadão aparece nas sessões públicas da Câmara a colocar em causa (más) decisões unilaterais questionáveis ou a manifestar discordância para referência futura. Nenhum cidadão passa cartão a essas mesmas sessões filmadas e disponíveis na Internet. Derrotados e conformados prescindimos voluntariamente do exercício de cidadania. Ano novo, tudo na mesma.




17/12/2022

Jornal Torrejano - Nº 1149 - 45 Milhões

Jornal Torrejano – Nº 1149 - 16/12/2022

45 Milhões

A maior parte da malta não tem paciência para assistir às reuniões públicas on-line da Câmara. Porque são extensas e chatas, não incluem vídeos de gatinhos, não incluem memes hilariantes, não incluem memes com frases magníficas que dão sentido à vida. Nem pornografia. Estas ausências pecaminosas, além de violarem descaradamente o propósito da internet, tornam o espetáculo já de si minimalista, muito enfadonho. Bom, desta vez a produção dispôs-se a fazer um esforço para atrair espectadores. Estão de parabéns, foi ótimo. Valeu a pena.

Assim por alto, a reter: Orçamento de 45M para 2023 aprovado. Como a prioridade é revitalizar a cidade e recuperar o centro histórico em ruínas, para esse efeito vão ser aplicados 200k desses 45M. Verdadeira fortuna, indicador do alto grau prioritário.

Atirar 1,5M á manutenção e requalificação energética das piscinas, com uma piscina de verão como brinde, também foi aprovado. Provavelmente vai custar a prancha de saltos, mas aquilo já não faz lá nada de qualquer modo. Ou não. Demolir coisas altas que já não servem para nada, é tema sensível de momento. Se calhar por isso, neste pormenor, todos concordaram. A torre de saltos deve ser mantida como símbolo. Símbolo de quê, ninguém sabia. Por ser inconveniente recordar que TNovas hospedou em tempos a modalidade de Saltos Ornamentais, ou por ignorância de tal facto, ficaram pelas memórias indulgentes de imperiais bebidas na esplanada, a olhar ternamente para a prancha de saltos que, não servia para nada, mas por motivo desconhecido ficava ali bem. Construir as piscinas de verão noutro local, não dá. Porque eram propostas de outros partidos. E o PS prefere investir numa asneira prévia mas sua, a ceder a ideias boas que não sejam do PS. Aproveitando a lição urbanística de elevada sensibilidade e carácter do presidente anterior, vão aumentar a asneira, com o dinheiro que sobrar da manutenção do cubo à beira rio plantado. O equipamento será certamente digno e, em todos os aspetos adequado, à população que propõe servir.

Foi decido alinhar na política de poupança de energia. Nesse sentido, a Câmara tomou a decisão de a iluminação pública, passar a ser ligada mais tarde e desligada mais cedo. Haverá dois períodos diários assim mais escurinhos, mais para o romântico. A reter: Vão abrir um buraco grande e fundo no meio da cidade. A seguir vão enchê-lo com água. E depois vão apagar as luzes. Esta malta é danada para a brincadeira.

Um rol de muitas obras e melhoramentos em diversas áreas ocuparam tempo de antena significativo. Todas, ou quase, dependentes de candidaturas a financiamento externo. Ou seja, só haverá obra “se”. A malta até quer fazer coisas, mas aqueles malandrecos lá em Bruxelas têm de colaborar. Cheguem-se à frente com a nota primeiro que a malta depois faz. Senão, ficamos pelos planos e promessas. O presidente afirma a atual capacidade de endividamento à banca como medalha atribuída pela polícia da sanidade financeira, à Câmara. Mérito da sua gestão. Muito bem. Quando o dinheiro estava barato, evitou-se a contração de dívida, poupou-se, apertou-se o cinto, remendou-se para além do saudável. Agora que as taxas de juro estão em subida galopante, o dinheiro está caro e com tendência a encarecer mais, estamos em sãs condições de contrair dívida. Genial. Há aqui matéria para um Honoris Causa em economia. Não é de estranhar, há precedente.

E, finalmente, o comic relief. Presidente e ex-presidente entram em duelo pela honra do grau de educação que cada um deles julga ter. Um mimo. E vocês a ver vídeos de gatinhos na internet. Nem sabem o que perdem. Para já, assim de repente, perderam 45M.




03/12/2022

Jornal Torrejano - Nº 1148 - Animais

Jornal Torrejano – Nº 1148 - 02/12/2022

Animais

Em Janeiro de1977 a banda britânica de Rock progressivo psicadélico Pink Floyd lançou o seu décimo álbum de originais, Animals. O primeiro álbum a ser gravado no seu próprio estúdio. A temática do disco é inspirada na obra satírica de George Orwell, Animal Farm (1945), traçando paralelos à realidade política e social vivida na Inglaterra dos anos 70, facilmente relacionável a vários outros pontos do mundo. Por esta altura os Pink Floyd já eram uma instituição reconhecida mundialmente. Tudo o que faziam era atentamente escutado nos quatro cantos do planeta e as posturas políticas, sociais, artísticas, registadas na música e nos poemas, estavam sob apurado escrutínio, tanto do grande público como de críticos e especialistas. Os Pink Floyd ao longo da sua carreira tiveram (quase) sempre algo a dizer sobre a sociedade, a civilização, a arte.

A capa do álbum, é uma montagem fotográfica produzida por uma empresa de design, mediante instruções da própria banda. Uma foto de uma central elétrica a carvão com quatro chaminés altas, no meio das quais paira um balão insuflável com a forma de um porco. A central elétrica na foto, foi construída nos anos 30 nos arredores de Londres à beira do rio Tamisa. Tendo cessado a sua atividade em 1983, desde então tem sido uma atração turística. Por figurar na capa de um álbum dos Pink Floyd, por os Beatles terem lá filmado cenas para o filme Help!, por ser o cenário de um videoclip dos Judas Priest, por outra foto (do interior) ser a capa de um álbum dos Hawkwind. Vários fotógrafos, amadores e profissionais, ao longo dos anos têm executado remakes destas imagens indelevelmente marcadas na cultura popular por via da música Rock. Desde a cessação da atividade de produção de energia, houve várias tentativas de rentabilização da infraestrutura para outras atividades mas sem sucesso. Foi comprada em 2006 por 400 milhões de libras por um consórcio imobiliário que, obteve licenciamento para lá construir 3400 habitações. O projeto foi abortado em 2010 pelos bancos credores desse grupo imobiliário. A central, com as suas 4 icónicas chaminés, ainda lá está.

É um exemplo de como a história da indústria não se resigna ao confinamento dos livros, não se rende ao obsoleto e, ganha vida própria. Sobrevive, quiçá para sempre, noutras ramificações culturais que não a arqueologia industrial, ou o livro académico resultante da investigação de um qualquer historiador. Daí a importância em manter erigidas estruturas cuja utilidade para a qual foram construídas se esgotou. São testemunhos físicos, palpáveis, existentes na vida real, não se resumindo a conceitos abstratos formados por palavras e imagens, num livro ou fotografia ou filme. Nessa condição, a utilidade torna-se vitalícia. A função, essa é variável. Passível de mutar de acordo com a evolução dos tempos. Não existindo, tendo sido demolida, tudo isto seria obliterado. Certamente os Pink Floyd, os Beatles, os Judas Priest, os Hawkwind, continuariam a fazer discos filmes videoclips. Teriam fotografado, filmado, noutros cenários. Provavelmente até num supermercado, quem sabe. Já o porco insuflável, graças a Orwell, ficará eternamente como a metáfora para o político sem escrúpulos.