Jornal Torrejano – Nº 1233 – 19/06/2026
CH4
Podemos enumerar os argumentos que habitualmente nos escudam de uma análise crítica, como se a escala económica, dimensão de mercado, localização geográfica, justificassem decisões péssimas, essencialmente motivadas por falta de verticalidade. Por sistema, quem manda neste cantinho à beira mar plantado, verga-se com facilidade a interesses prejudiciais ao país que lhe paga o ordenado base. A economia nacional contém vários exemplos de áreas de negócio a contribuir significativamente para o PIB rejeitadas noutras geografias. A indústria do papel, celulose, eucalipto, é exemplo. Somos orgulhosamente os maiores da Europa nesse campo. Porquê? Porque mais ninguém o quer. Altamente poluente, degrada os solos, extingue ecossistemas, consome quantidades absurdas de água potável, é desinteressante para qualquer ser humano com dois dedos de testa, preocupado com a sustentabilidade, com o ambiente, com as consequências a médio e longo prazo na ecosfera, o sítio onde vive e viverá a sua descendência.
Aquilo que era bom, sustentável, natural, pouco ou nada poluente, e, curiosamente, tradicional, foi-se para outras paragens, onde a verticalidade autóctone não se importou de pagar o complemento salarial, subsídio de refeição e comissões, a quem o salário base ficava curto para as ambições. Trocaram pescado, azeite, fruta, cortiça, cereais, leite e derivados, por eucalipto.
Em traços gerais foi assim que chegámos aqui. A trocar o bom pelo péssimo e a desculparmo-nos disso com a nossa dimensão reduzida e infeliz localização nos confins, no extremo do mundo civilizado. Oficialmente, a falta de peso negocial eliminou qualquer outro facto. Quando na realidade, fomos comprados. Embora só uma elite muito exclusiva tenha recebido um cheque grande e gordo. Para o resto da população, empreendedora, foram os largos milhões do fundo social europeu a fundo perdido nos anos 80 e 90. Ou ninguém discorreu o que era aquilo?
Desperdiçados em futilidades os fundos destinados a preparar as microempresas e empresas familiares para continuar a produzir excelência mas num mercado maior e mais competitivo, restou-nos declarar falência e passar a importar os mesmos bens mas com qualidade medíocre. Também em traços gerais, a nossa atitude colectiva tem sido comer o bife sem querer saber como é tratada a vaca. Só acordamos para a realidade que deliberadamente fomos ignorando, ao longo de décadas, quando ela nos arromba a porta da frente com estardalhaço.
Justificando com a instabilidade geopolítica actual a par da dependência energética e metas de redução de consumo de combustíveis fósseis, o governo declarou o biometano como activo estratégico, usando na mesma frase expressões como, "agilizar licenciamentos", "atrair investimento" e, "alinhamento europeu". A expectativa é chegar a 2030 com cerca de um décimo do consumo de gás natural transitado para biometano. A Mota Engil anunciou a instalação de cinco centrais de biometano em território nacional até ao fim do ano corrente. Portanto, ao que tudo indica, o processo está em marcha, imparável. Muitos clientes domésticos receberam há uns meses uma comunicação do fornecedor de gás natural a informar que, a partir de determinada data, já não seria fornecido inteiramente gás natural mas sim uma mistura com hidrogênio. Já era todo este alinhamento a ser posto em prática.
As guerras guerrinhas e escaramuças pelo planeta fora, não vão abrandar, a instabilidade geopolítica vai continuar. Os Trumps desta vida, uma vez instalados, já nada os arranca de lá. A invasão do capitólio foi ilustrativa, era o início de uma guerra civil. Se não for o mesmo fantoche a ocupar o lugar, será outro com o mesmo guião. Previsivelmente, continuará a ser justificável a diminuição do consumo de energia oriunda de determinadas geografias, no sentido de reduzir a dependência.
Tenho toda a empatia com a população de Árgea, concordo com os protestos, defendo a liberdade cívica para dizer não a mais um atentado à saúde e bem estar das pessoas e, eventualmente, a médio prazo, um crime ambiental anunciado. A memória da Fabrioleo ainda está bem fresca. Mas temo que sejamos impotentes para deter o "progresso". Assim como não levo a bem a opção de varrer o problema para a porta de outrem. Uma argumentação sólida tem de obrigatoriamente obedecer a uma análise criteriosa da questão como um todo, propondo também alternativas viáveis. Começando por compreender porque é que exclusivamente Árgea responde positivamente aos parâmetros estipulados para a implementação de uma unidade industrial com estas características. Um projecto de dimensão assinalável sem um plano "B"? Sem vias de comunicação entre as partes, só é possível presumir pressupor e conjecturar.
Encurralar um animal não é boa ideia. Quando ele percebe que a única saída é derrubar-nos...

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