Jornal Torrejano – Nº 1234 – 03/07/2026
É só uma fase
O ciclo de vida de uma área de negócio (empresa, departamento, produto) compreende cinco fases: desenvolvimento, crescimento, maturidade, declínio e, extinção. Algures durante a fase de maturidade é onde se deve intervir, com o objectivo de evitar as duas fases seguintes. É durante o processo de maturidade que ocorrem tentativas de reinvenção, reestruturação, injecção de sangue novo. Profissionalmente, estive em ambos os lados da barricada, tanto contratado porque a empresa pretendia renovar, como dispensado pelos mesmos motivos. Tipicamente renovam-se quadros, mudam-se CEOs, tentam-se novas abordagens, diferentes estruturas orgânicas. Flutuações nos mercados financeiros acompanham estes momentos, dúvidas expectativas hesitações, fazem oscilar os valores de cotação.
Talvez por um narcisismo natural, ou por falta de imaginação, a tipificação do ciclo empresarial decalca o ciclo da vida humana. Também cinco fases: período pré natal, infância, adolescência, idade adulta, velhice. Sendo a morte a antítese da vida, faz sentido não ser mencionada sob o título, embora seja o desenlace inevitável do processo. A maturidade, fase crítica, perfeitamente identificada e definida no ciclo empresarial, ilude-nos no ciclo humano. Não depende directamente da idade biológica, flutua ao longo de todo o ciclo, podendo até, nunca ocorrer.
A infância termina quando tomamos consciência da morte. Conceito partilhado por psicólogos, filósofos e autores literários, implica um degrau significativo para o início da maturidade. Despertar para a realidade de uma existência finita. Sendo um processo complexo e dependente de diversas variáveis, a maturidade nunca é absoluta, é um trabalho em curso, permanente. Necessidade ou vontade de reinvenção ocorre, com ou sem maturidade solidificada. Quando detectamos as primeiras limitações físicas, o início do declínio e, tomamos consciência da velhice, ou, em qualquer outra altura, como resposta a um evento traumático, pressão social ou ainda, por pura e simplesmente experiência de vida acumulada, subimos mais um degrau. A reinvenção pode perfeitamente ocorrer sem beneficiar do discernimento oferecido pela maturidade, configurando-se assim, errática, inoportuna, inútil. Ou mesmo contraproducente.
A excelente iniciativa Guardiões do Rio Almonda, estimulada e apoiada pela Câmara Municipal, em menos de três anos de existência retirou mais de cinco toneladas de lixo do rio. Considerando que se baseia em voluntariado e os meios disponíveis são essencialmente trabalho braçal, se fosse eu a mandar, elegia esta malta a candidatos para atribuição de medalhas de mérito. Fantástico.
Não tão fantástico é a informação que podemos retirar destes dados: a persistência de comportamentos danosos e irresponsáveis. O civismo ausente e proliferação de javardos. Atingida a maturidade do projecto Guardiões do Rio Almonda, será vital introduzir reinvenção. Uma balança para pesar o lixo retirado do rio por mãos voluntárias, apesar da quantificação ser fundamental para gerar informação e avaliar o comportamento dos mercados na respectiva área de negócio, é um meio manifestamente escasso, e ligeiramente desfocado para o crescimento e longevidade do projecto. Como fica demonstrado pelos resultados de dois anos e tal de actividade, a necessidade anuncia-se tristemente vitalícia. A reinvenção, além da alocação de mais e melhores instrumentos operacionais, pode introduzir em paralelo a monitorização activa permanente do rio, prevenindo comportamentos abusivos e ilegais. A sensibilização dos cidadãos para a importância da salubridade do Almonda e o que de positivo isso trás para a comunidade, através de comunicação institucional pública de indicadores de salubridade, seria excelente para aproximar a população ao rio.
Apesar de Torres Novas não possuir ensino superior, acho perfeitamente exequível existirem protocolos com departamentos de biologia de universidades hospedadas noutras cidades, alinhados com os diversos programas de preservação ambiental e diversidade biológica existentes. Caso tenha passado despercebido, o programa de financiamento europeu LIFE, com orçamento anual de 600 milhões de euros, destina-se precisamente a este âmbito. De qualquer modo, as empresas que retiram dividendos directos e indirectos do rio, estão naturalmente posicionadas como potenciais patrocinadores destas e outras actividades. Os seus departamentos de marketing, cuja criatividade e eficácia foi já perfeitamente comprovada, certamente iriam agradecer a disponibilização de um argumento eticamente idóneo, socialmente e ambientalmente responsável, para variar.
Criadas condições favoráveis para que seja possível tudo isto acontecer, é fundamental que um conjunto de maturidades se encontrem e partilhem uma necessidade de reinvenção comum. Não me parece, de todo, cenário impossível. Caso contrário, passaremos à fase seguinte.

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