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15/10/2026

Jornal Torrejano – Nº 1241 - Só um bocadinho

Jornal Torrejano – Nº 1241 – 16/10/2026

Só um bocadinho

Torres Novas na frente da inovação, cria, ou permite que seja criado, o conceito de farmácia itinerante. O CHMT inova com o serviço de cuidados domiciliários, a iniciativa privada responde com a farmácia itinerante. Que golpe de mestre! Pedrogão, Quinta da Silvã, Centro Comercial. Para já. Desconhecem-se as próximas paragens do percurso, mas, analisando o realizado até aqui, a tendência será em direcção ao Entroncamento, para apanhar o comboio para Lisboa, deduz-se. É lá que está o negócio a sério. A prioridade é a facturação, o crescimento, o desenvolvimento, o progresso e, Portugal é Lisboa, o resto é paisagem.

Tudo isto, "um bocadinho vinculado à legalidade". Como o fulano que estava um bocadinho morto, ou a miúda que estava um bocadinho grávida. Era só um bocadinho, mal se notava, não fazia mal nenhum. Uma Câmara Municipal "totalmente vinculada à legalidade", isso sim, seria inovador. Inaudito, original, sem precedente.

No episódio evidenciam-se também propostas de física teórica passadas a física aplicada, num estalar de dedos. "Existem alternativas a poucas centenas de metros." A contar a partir de onde? Da primeira ou da última paragem da farmácia itinerante? Para um jovem de 20 anos com uma constipação num Ibiza fumarento, ou para um idoso com problemas oncológicos numa cadeira de rodas? O TUT é solução sequer? A relatividade, ai a relatividade! Essa teoria manhosa. A farmácia chega mais depressa ao centro comercial que o idoso à tal farmácia alternativa "a poucas centenas de metros". Deve ser a tão badalada "política de proximidade" a afirmar-se em todo o seu esplendor.

O que deve manter-se no patamar do "só um bocadinho" a todo o custo, é mesmo o vínculo à legalidade. Imagine-se o que aconteceria à nascente do Almonda e à Renova? Que postura a Câmara Municipal seria obrigada a ter, se o vínculo à legalidade não fosse só "um bocadinho"? Provavelmente teriam de organizar visitas guiadas ao ground zero do acontecimento. Mostrar ao cidadão, pagador de impostos e comprador de papel higiénico, a cratera de impacto. Teriam de explicar muito bem explicadinho os comos e os porquês de aquilo ter acontecido. E, justificar porque assim permanece, ano após ano. Provavelmente também teriam de recrutar recursos humanos para as funções de guia turístico, transporte, catering e segurança. 28 recursos deveriam ser suficientes para suprir a necessidade emergente. Porque não sendo emergente, teria de ser planeado. E planeamento é coisa que não assiste a existência lusitana.

Uma vez que a sigla TUT já está ocupada, podia chamar-se TRUJA Tours (Turismo Rasca e Utilitarista à Jazida do Almonda). Pagando à Renova o direito de acesso ao espaço, claro. Isto admitindo que a multinacional estaria interessada nesta joint venture para rentabilizar a... chamemos-lhe, singularidade. Transformar a adversidade em oportunidade, seguindo os conselhos que se podem ler algures no livro de um empresário de sucesso, muito católico, aspirante a imperador, ou divindade, ou ambos. O autor tem o nome de um pato, já não me recordo bem. (*) Tudo isto a acontecer um bocadinho dentro da legalidade, claro.


(*) Trump Never Give Up: How I Turned My Biggest Challenges into Success 

(John Wiley & Sons, 2008)




01/10/2026

Jornal Torrejano – Nº 1240 - Esposas, mães, filhas, irmãs, mulheres

Jornal Torrejano – Nº 1240 – 02/10/2026

Esposas, mães, filhas, irmãs, mulheres

Para escrever as crónicas no Jornal Torrejano, habitualmente faço previamente um périplo pela imprensa regional para me inteirar da realidade, ficar a saber o que se passa. Nem sempre o tema seleccionado é o mais relevante da actualidade, depende da inspiração para escrever, depende de factores, muitas vezes, aleatórios. Hoje, domingo, enquanto fazia precisamente isso, recebi uma mensagem da minha mulher que tinha saído à rua. Devido a coleccionar grupos de risco, ocorre desde algum tempo uma pressão significativa no seio familiar no sentido de este preguiçoso crónico fazer exercício físico. Tenho resistido ferozmente à pressão, embora reconheça a pertinência. Suspeito que os médicos que ocasionalmente consulto tenham subornado a minha mulher. Preço a pagar por me fazer acompanhar de secretária nas consultas. Dizia a mensagem, estava a decorrer uma aula aberta (gratuita) de ginástica e bicicleta estática na praça em frente à Câmara Municipal do burgo onde pago IMI. Aula mista, com homens e mulheres. Ao som de AC/DC. Era esse o argumento motivador. A música que acompanhava o processo cruel de tortura colectiva estava dentro do meu espectro de preferências. Calculo que para muitos, seria o contrário. Cada um mata-se como quer, mas para mim, Highway to Hell ou Hells Bells fazem todo o sentido naquele contexto.

Como os pensamentos são como as cerejas, mesmo que não fossem, o meu subconsciente faria o que fosse preciso para expelir a ideia de esforço físico da minha mente, fui conduzido à questão da mentalidade e sua plasticidade. Recuando uns anos, seria improvável senão impossível, um evento deste género acontecer ao som de Hard Rock. As mentalidades mudaram, evoluíram. Seguindo esta lógica, dado o tempo necessário, quando acontecer ao som de Black Metal, já será tarde para mim. Ou lá estarei, de andarilho, a arrastar a botija de oxigénio, a marcar o tempo do blast beat com o indicador direito na armação de alumínio, os menos atentos interpretariam no gesto um tique da doença de Parkinson. Porque o estado da coluna vertebral já não permite abanar a cabeça sem consequências sérias. Já hoje não permite e, o cabelo já se foi há muito. O importante é participar.

Atrás, referi-me sempre à minha esposa como "mulher", referi-me aos participantes da aula como "homens" e "mulheres". Foi intencional. Um cidadão foi assaltado em Torres Novas e a polícia viu-se incapaz de acudir em tempo útil porque os recursos disponíveis estavam alocados a um caso de violência doméstica. O percentual das ocorrências de violência doméstica onde a mulher é vítima, em Torres Novas, situou-se nos 83 pontos em 2025 e, nos 72 no primeiro semestre deste ano. Maioritariamente no seio familiar, em casa. No global (números nacionais), estes cenários ocorriam inseridos num contexto de alcoolismo. Os tempos mudaram, as mentalidades mudaram, hoje o alcoolismo é menos preponderante, a noção inapropriada de posse toma o seu lugar. O bêbado sai, o labrego fica.

Embora a falta de recursos humanos e materiais da polícia seja um facto preocupante, a má formação do cidadão e a mentalidade retrógrada estão na origem deste problema específico. Problema que consome os parcos meios, solicitados com urgência para outras ocorrências. Se o fígado gordo estivesse a perder peso numa aula de exercício físico, idealmente como actividade conjunta de casal, saíam todos a ganhar. Consumiam-se energias, reforçavam-se laços. Provavelmente seria a mulher a dar uma palmada ao homem por ele estar a olhar para as nádegas da miúda da frente. Mesmo que fosse ao som de Pimba, evitavam-se problemas maiores. Na impossibilidade de possuir ou aceder a uma rage room totalmente equipada, arrear num ser humano, ou animal, é inaceitável.

Mas isto sou eu, a escrever refastelado no sofá a ouvir música rápida e furiosa em volume moderado, a afagar três gatos no colo. Baixa a tensão, normaliza o ritmo cardíaco, reconforta e acalma. Com todos estes luxuosos meios, falar é fácil.