Jornal Torrejano – Nº 1241 – 16/10/2026
Só um bocadinho
Torres Novas na frente da inovação, cria, ou permite que seja criado, o conceito de farmácia itinerante. O CHMT inova com o serviço de cuidados domiciliários, a iniciativa privada responde com a farmácia itinerante. Que golpe de mestre! Pedrogão, Quinta da Silvã, Centro Comercial. Para já. Desconhecem-se as próximas paragens do percurso, mas, analisando o realizado até aqui, a tendência será em direcção ao Entroncamento, para apanhar o comboio para Lisboa, deduz-se. É lá que está o negócio a sério. A prioridade é a facturação, o crescimento, o desenvolvimento, o progresso e, Portugal é Lisboa, o resto é paisagem.
Tudo isto, "um bocadinho vinculado à legalidade". Como o fulano que estava um bocadinho morto, ou a miúda que estava um bocadinho grávida. Era só um bocadinho, mal se notava, não fazia mal nenhum. Uma Câmara Municipal "totalmente vinculada à legalidade", isso sim, seria inovador. Inaudito, original, sem precedente.
No episódio evidenciam-se também propostas de física teórica passadas a física aplicada, num estalar de dedos. "Existem alternativas a poucas centenas de metros." A contar a partir de onde? Da primeira ou da última paragem da farmácia itinerante? Para um jovem de 20 anos com uma constipação num Ibiza fumarento, ou para um idoso com problemas oncológicos numa cadeira de rodas? O TUT é solução sequer? A relatividade, ai a relatividade! Essa teoria manhosa. A farmácia chega mais depressa ao centro comercial que o idoso à tal farmácia alternativa "a poucas centenas de metros". Deve ser a tão badalada "política de proximidade" a afirmar-se em todo o seu esplendor.
O que deve manter-se no patamar do "só um bocadinho" a todo o custo, é mesmo o vínculo à legalidade. Imagine-se o que aconteceria à nascente do Almonda e à Renova? Que postura a Câmara Municipal seria obrigada a ter, se o vínculo à legalidade não fosse só "um bocadinho"? Provavelmente teriam de organizar visitas guiadas ao ground zero do acontecimento. Mostrar ao cidadão, pagador de impostos e comprador de papel higiénico, a cratera de impacto. Teriam de explicar muito bem explicadinho os comos e os porquês de aquilo ter acontecido. E, justificar porque assim permanece, ano após ano. Provavelmente também teriam de recrutar recursos humanos para as funções de guia turístico, transporte, catering e segurança. 28 recursos deveriam ser suficientes para suprir a necessidade emergente. Porque não sendo emergente, teria de ser planeado. E planeamento é coisa que não assiste a existência lusitana.
Uma vez que a sigla TUT já está ocupada, podia chamar-se TRUJA Tours (Turismo Rasca e Utilitarista à Jazida do Almonda). Pagando à Renova o direito de acesso ao espaço, claro. Isto admitindo que a multinacional estaria interessada nesta joint venture para rentabilizar a... chamemos-lhe, singularidade. Transformar a adversidade em oportunidade, seguindo os conselhos que se podem ler algures no livro de um empresário de sucesso, muito católico, aspirante a imperador, ou divindade, ou ambos. O autor tem o nome de um pato, já não me recordo bem. (*) Tudo isto a acontecer um bocadinho dentro da legalidade, claro.
(*) Trump Never Give Up: How I Turned My Biggest Challenges into Success
(John Wiley & Sons, 2008)

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