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09/03/2022

Jornal Torrejano - Nº 1108 - As árvores morrem de qualquer maneira e feitio.

Jornal Torrejano – Nº 1108 - 09/04/2021

As árvores morrem de qualquer maneira e feitio.

Comemorou-se a 21 de Março o dia da floresta. O Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) resolveu assinalar a data disponibilizando 50.000 árvores gratuitamente à população. Quem as quisesse plantar, teria de se identificar, inscrever, levantar a árvore (até um máximo de dez árvores por pessoa) e, num prazo de 48 horas, declarar o local onde plantou documentando com fotos. Excelente. Tudo espécies autóctones e o número de árvores disponibilizadas subiam para 100, caso se destinassem a propriedade rural. Duplo excelente. Além da ação em si ser louvável e, aparentemente bem estruturada, interpreto no subtexto uma preocupação, também ela do lado da solução. A preocupação com a responsabilização e a continuidade. Não foi uma coisa à toa, tipo: “está aí, sirva-se, andor”. Talvez seja indicador de uma consciencialização, a correr atrás do prejuízo diga-se, mas pronúncio de melhores dias. Dias mais eficazes e produtivos que deem a oportunidade à árvore de crescer e se tornar numa… árvore. Em vez dum galho seco, num vaso esquecido em cima do frigorífico.

A Câmara Municipal, por via do programa “Floresta Comum” onde o ICNF é parceiro, recebeu 10.000 árvores destinadas a terrenos públicos. Excelente. O grosso da coluna das candidaturas a este programa destinam-se a rearborização de área classificada e área ardida, apenas 8% são para floresta urbana, o pulmão das cidades. Não excelente. É um número demasiado baixo para ser animador. Conversão para espécies autóctones e recuperação de área ardida destacam-se como uma nódoa. A aparente irrecuperabilidade do pinhal de Leiria e eucalipto até à linha do horizonte, são testemunhas de um sistema avariado, que consome, polui, sufoca o que é de todos, remetendo para o campo cívico a responsabilidade de contrariar o mau funcionamento. Cada vez mais a área urbana é gerida com inclusão de espaços florestais e hortas comunitárias, alternativas mais eficientes aos jardins de flores meramente decorativos, consumidores ávidos de água e cuidados. Visto a Câmara Municipal possuir uma preferência declarada por espaços decorativos e, precedente no desleixo de espaços verdes, deposito a minha esperança nos mecanismos de monitorização do programa “Floresta Comum” para que nada fique esquecido, como ficou ali para os lados da Vila Cardilium. Não se resume a um vaso esquecido em cima do frigorífico. Não se trata do dinheiro deitado à rua. Trata-se de responsabilidade e credibilidade que escasseiam. Ficamos sem saber ao certo o número de plantas, são mais de 10 mil, dizem. Ficamos sem saber quantidades ou percentual entre árvores e arbustos, desde 1 árvore e 9.999 arbustos ao inverso, tudo é possível. Ficamos sem saber a que locais se destinam exatamente, vão ser distribuídos por uma área total de 50km2 e, ficamos assim. Na realidade, a única informação possível de extrair é: Mais de 10 mil plantas vão ser distribuídas por 50km2. É só. O que devia ser transparente, torna-se opaco. Se isto se passasse num jornal, seria mau jornalismo. Sendo num comunicado da Câmara Municipal, é mau quê? Mais árvores só é boa ideia se for para os netos e bisnetos usufruírem da sombra. É estranho ter de ser um gajo sem descendência a recordar isto.




08/03/2022

Jornal Torrejano - Nº 1107 - São rosas, senhor.

Jornal Torrejano – Nº 1107 - 19/03/2021

São rosas, senhor.

No esforço para colonizar Marte, a Nasa fez uma parceria com o município. Marte é assim sem interesse nenhum, desértico, árido, ninguém lá vai ou quer ir. Então a Nasa pensou contrariar esta tendência abrindo lá um tasco. Havendo um tasco, a malta começa a aparecer. O projeto piloto foi posto em prática naquela coisa que ocupa o largo do Rossio, falta pintar o logotipo da Nasa no telhado do caixote branco. As cretinices querem-se juntas, assim só se estraga uma casa. Se não foi a Nasa, duvido que alguém saiba o que foi. Aqui nunca se sabe de nada: “Foi vacinado? Não sabia de nada!”, “Lar ilegal? Não sabia de nada!”, “Cheira mal? Não me cheira a nada!”…

Eu, por exemplo, não sabia que se desenvolvia no concelho a atividade de “Retaliação contra o mal”. Muito menos sabia que era desenvolvida pelo Corpo Nacional De Escuteiros. Percebe-se que a pandemia tenha colocado em perigo a sobrevivência desta atividade e, a Câmara apoie com 3.327,04 euros. É um número bastante conciso. A “Retaliação contra o mal” deve ter os custos exaustiva e detalhadamente quantificados. Tem de ser, o Mal não dá tréguas. A pandemia veio mandar ao charco uma série de instituições e atividades que usufruíam de um estado de saúde perfeito e moral elevada até à data. Depois veio a Covid-19… e foi tudo abaixo. O que até então era são, próspero e autossuficiente, ficou moribundo e dependente de apoio, de um momento para o outro. Dos Escuteiros aos Ranchos e à Columbofilia (no topo da lista com quase 7 mil euros, deve chorar mais dramaticamente que os outros), todos clamam por ajuda. Malvada pandemia. Já a malta que repara sapatos ou vende bifanas depende mais da reação empática, emocional, da sociedade civil e, não tanto no apoio institucional que, oferece uma resposta personalizada, estruturada, planeada, desenhada a régua e esquadro. No total são 130 mil euros de apoio camarário, exclusivos para a cultura e desporto. Ou seja, nada. Não resolve nada, não vai mudar nada. É uma mera desculpa para apostar 130k de fichas na casa do “politicamente correto”, girar a roleta, esperar ficar bem na fotografia e, calar umas quantas vozes no processo. Se por um momento desprezar a questionabilidade das prioridades definidas, na prática: 130k, não resolve nada. E aproveitar este compasso de espera para ser proactivo? Discutir a restruturação de uma série de instituições, com modelos operacionais do século 19, tendo em vista a sua sustentabilidade, através de requalificação da oferta e de gestão orientada a resultados? Fica varrido para debaixo do tapete, por um balão de oxigénio que parece talhado à medida para pagar custos fixos durante algum tempo. Continua-se a assobiar para o lado perante os elefantes que se vão acumulando no meio da sala. Atira-se dinheiro aos problemas para evitar que alguma coisa mude. Não mudando nada, as ideias inovadoras da Nasa salvam sempre tudo. “Great success!”(*).

(*) A ser lido com a pronuncia do Borat.




07/03/2022

Jornal Torrejano - Nº 1106 - Negócio fechado.

Jornal Torrejano – Nº 1106 - 05/03/2021

Negócio fechado.

Fomos bafejados pela sorte. Bruxelas tinha no cardápio dos financiamentos a construção de ciclovias. E pronto, cá vamos nós pedalar. Sugiro que batizem a ciclovia de “Pedal Frenético”, (P.F.). Não sei bem que solução vão engendrar para a colocação da plaquinha com o nome. Alguma coisa se há-de arranjar, filha de pai incógnito não vai ficar. Para gerar negócio local e aparentar planeamento consolidado, fica a faltar uma daquelas lojas de artigos desportivos que vende bicicletas e todos os acessórios. Ah… espera…

Se em vez de ciclovias o financiamento disponível fosse para transportes marítimos, estávamos tramados. Ia custar uma pipa de massa trazer o mar até aqui. Não deixava de ter uma pinta do caraças ir das Tufeiras ao Titó de ferry ou hovercraft. Mas que ia dar uma trabalheira monumental, ia. E caro, muito caro. Embora a componente financeira não aparente ser problema para a Câmara. Bom, talvez eu esteja a fazer uma leitura errada e, na realidade, o problema resida na incompreensão da mecânica do processo negocial e não no à vontade financeiro. Estão tão habituados a negociar com o dinheiro dos outros que, quando o vendedor pede 38 mil pelo bem, a Câmara propõe 40. O vendedor esclarece que são 38 e não 40. Perante o esclarecimento a Câmara contrapropõe 50. O vendedor perplexo diz: “Acho que não estão a perceber. O preço é de 38 mil euros”. Ao qual a Câmara responde: “Então, está bem, 60 mil. Mas olhe que já não dá para subir muito mais…” O vendedor já exasperado, com o polegar e o indicador da mão direita na cana do nariz, replica: “Há alguma falha na comunicação. Agora devagarinho, como se os senhores fossem muito estúpidos: O preço que estou a pedir são t-r-i-n-t-a e o-i-t-o mil euros. Três oito.” Ao que a Câmara, sorridente, responde: “Ok. 61 mil e não se fala mais nisso.” Negócio fechado. Se a avaliação do bem em 38 mil euros não partisse do próprio município, não sei muito bem onde iria parar o valor. Assim, salvaguardando a coerência e a óbvia vantagem financeira, ficou por ali. Vá lá. Talvez por terem esgotado a capacidade de argumentação com esta negociação e sem fôlego pelo esforço despendido, a maioria governante decidiu abster-se na votação de uma obra, necessária, proposta por um partido da oposição. Graças a isso, a obra foi aprovada. É curioso que, quando o chefe se cala e fica quietinho, se façam coisas e se avance. Noutra obra, também ela necessária, a competência exibida obrigou a intervenção logo a seguir à inauguração. Intervenção de manutenção e não corretiva. Talvez este facto se deva a não existir consenso acerca do local. Uns dizem que é na Beselga, outros na Bezelga. E depois a malta queixa-se que os CTT funcionam mal. Pudera. Mas mais dilemas se perfilam no horizonte. Lá para os confins do império, na fronteira com Tomar, um individuo resolveu vedar a sua propriedade e, como consequência lateral, impediu o acesso a uma linha de água que, em tempo de chuva, forma uma pequena cascata bonita de se ver. A malta não gostou. Calculo que entre auditoria, avaliação e decisão, passe tempo suficiente para construir ali uma fábrica de papel. Então será tarde, pois colocaria em causa uma série de postos de trabalho, de salário mínimo, vitais para o desenvolvimento da região. Não é tão rebuscado quanto isso, há precedente.

Entretanto, o Ministério Público decidiu investigar os casos das inoculações com as sobras das vacinas contra a Covid 19. Independentemente das conclusões que possam resultar dessa investigação, acho estranho o MP consumir tempo e recursos a investigar casos de altruísmo e ingénua boa vontade. Uma dica para o MP: Não investiguem. Negoceiem. Vão ficar surpreendidos com os resultados.