Jornal Torrejano – Nº 1238 – 04/09/2026
Digital
O risco de migrar o conhecimento humano para o formato digital é real. Somando a vulnerabilidade de hacking, colapso físico das estruturas de suporte (data centers e comunicação de dados), sujeitos a desastres naturais e, erros de planeamento humano, o risco é muito real.
A localização física dos data centers tem em conta alguns destes riscos. O clima, locais maioritariamente frescos para favorecer a dissipação do calor gerado e poupar em energia para arrefecimento, baixando os custos de exploração. A geologia, solo preferencialmente rochoso para minimizar consequências em caso de terramoto e suster o peso sem ceder. A proximidade de fontes de energia eléctrica, capazes e redundantes, também é factor. A facilidade de conectividade a redes de dados, com caudal e redundância capazes, também. Todas estas infraestruturas devem possuir capacidade de crescimento para satisfazer necessidades emergentes, protegendo o investimento. Em muitos casos sacrifica-se o impacto ambiental em prol da protecção do investimento.
Mas porque é que são precisos tantos data centers? Será pela crescente digitalização das rotinas humanas? Não. É a exigência da Inteligência Artificial. A infraestrutura de hardware necessária para responder às necessidades da IA e crescente democratização do seu uso é de proporções épicas. Daí estarem a surgir em Portugal data centers como cogumelos. Neste ponto convém fazer a distinção entre data center (centro de dados) que disponibiliza armazenamento em larga escala, e server farm (exploração de servidores) que disponibiliza exclusivamente processamento. Ambos convivem bem na mesma casa, se calhar por simplificação semântica chamam data center a tudo. A localização geográfica dos cabos submarinos que ligam a Europa à América e África têm pontos de acesso (5) precisamente em Portugal, colocando o nosso país em destaque, privilegiado para este género de investimentos. O valor do serviço prestado pela empresa proprietária de qualquer data center está directamente relacionado a um uptime tendencialmente de 100% e um downtime tendencialmente de 0%. Ou seja, quanto maior for o factor de disponibilidade, maior é o valor do serviço.
Portanto, para determinadas multinacionais estarem a investir em Portugal nesta área, estão a perceber a dimensão de garantias que estão a ser proporcionadas? A reconfiguração em curso da distribuição da rede eléctrica, fragilidade posta a nu pelo apagão ibérico, não se prende tanto com X milhões de consumidores ficarem umas horas sem televisão e sem Facebook. A torradeira do português pode não ter electricidade para funcionar, mas a IA tem de permanecer em cima, disponível para os milhões de consumidores na América, África e resto da Europa. Não se resume à habitação ficar acessível exclusivamente a estrangeiros com capacidade económica superior à nossa. O problema nacional é mais profundo e transversal. O balanço custo/benefício tem implicações complexas, nesta mentalidade orientada à prioridade dos mercados financeiros, atropela-se o ambiente e bem estar humano sem remorsos. Portugal a crescer acima da zona euro, para quê e a que custo?
Seja como for, a fragilidade de colocar todo o conhecimento humano em formato digital prevalece. Se calhar devíamos destacarmo-nos por criar bibliotecas/videotecas/sonotecas de formatos físicos e não por prestarmos vassalagem aos data centers.

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