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07/08/2026

Jornal Torrejano – Nº 1236 - Caderneta completa

Jornal Torrejano – Nº 1236 – 07/08/2026

Caderneta completa

Torres Novas está prestes a completar a caderneta. Faltava o Mercadona, ele aí vem. Acontece sempre uma sensação de excitação e plenitude quando finalmente o cromo em falta se revela ao abrir a saqueta. Claro que a defesa do comércio tradicional, argumento de vendas em várias campanhas e discursos, foi defendido heroicamente. Mas pronto... no fim, perdemos a guerra. Parece a selecção nacional de futebol. Promete-se, exulta-se, elevam-se os espíritos, e no fim, nunca ganha. O município criou condições para que os desempregados e falidos do comércio tradicional tenham uma hipótese de emprego nas grandes superfícies. A malta aplaude e dá palmadinhas nas costas uns do outros. O que seria de nós sem os políticos a zelar pelos nossos interesses? Como dizia o ébrio Vasco Santana, chapéus há muitos, ó palerma.

Como metade dos conformados está a regressar de férias, antes que se entusiasmem a comparar os escaldões com pedigree do Algarve com os escaldões rafeiros da costa oeste, convém domesticá-los para o regresso ao rengo rengo da rotina, onde vão existir durante mais um ano. Nesse sentido, a autarquia preparou dois workshops de regresso à normalidade: as piscinas que não abriram como prometido e, as obras do largo do Virgínia que não arrancaram como prometido. Assim o pessoal habitua-se imediatamente à rotina, aos velhos hábitos. Quando a outra metade dos conformados, a ir de férias agora, regressar, haverá novos workshops preparados. Muito provavelmente os mesmos. Porque a equidade também é palavra frequente nas campanhas e discursos. Há que cumprir com o prometido.

Entretanto, para quem não participou no êxodo sazonal e ficou por cá, além de manter o lugar na fila para tirar ticket habilitador a melanoma, porque rodeado de ingleses genuínos e franceses falsos na praia, ou a comer pó beber minis e a levar cornadas no campo, o sol é o mesmo, a festarola riachense meteu um visto nos quadradinhos todos. Num golpe de brilhantismo, o presidente da Câmara achincalhou duramente quem teve a ousadia de criticar o evento, de onde resultaram 4 feridos. Pagar bilhete para servir de objecto de diversão de um touro bravo, num evento apoiado financeiramente e institucionalmente pela Câmara, é incriticável, na opinião dele. Não satisfeito com este brilhantismo, decidiu incrementar lúmenes e ofuscar tudo e todos com a proposta de submeter a Festa da Bênção do Gado de Riachos à UNESCO como património imaterial da humanidade. Até à presente data, nunca nenhum país submeteu à UNESCO um evento onde estivesse incluído uma componente tauromáquica. A acontecer, esta será a primeira vez. De notar: nem Espanha, nem México, nem... NINGUÉM, teve a ousadia de submeter algo do género à UNESCO. Tinha de ser um cromo torrejano. Incrível. Apesar da UNESCO não ter uma posição definida em relação ao tema, grandemente porque nunca foram confrontados com tal coisa, a rejeição de todos os argumentos da causa animal, pactuar com a barbárie, ocupar a cadeira de pária num espetáculo/diversão que, à sua frente, enviou quatro seres humanos, um em risco de vida, para o hospital, é considerado boa ideia.

Percebem agora ao que me referia no início? Aquela injecção de adrenalina quando ao abrir a saqueta sai de lá um cromo raríssimo que completa a colecção? Tah dah!




16/07/2026

Jornal Torrejano – Nº 1235 - Gestão de recursos naturais

Jornal Torrejano – Nº 1235 – 17/07/2026

Gestão de recursos naturais

A definição de língua viva é, um idioma que é utilizado na comunicação quotidiana, está em evolução permanente e, possui falantes nativos. Mesmo declinando acordos ortográficos, entendo que, todos os que ocorreram e possam eventualmente vir a ocorrer, são sintomas da tal evolução permanente da língua viva. Outro aspecto desta evolução acontece quando algo que passou a ser verbalizado de forma significativamente diferente da sua forma escrita, de forma transversal e permanente ao longo de muito tempo, passa a ser a versão oficial. Acontece inclusivamente mudanças de significado de determinadas palavras, no limite, até inversão, passando a significar exactamente o oposto do que significava antes.
Não sou linguista, nem ouso incursão nesse campo mas, identifico perfeitamente a dissociação entre discurso e realidade quando ocorre à minha frente. A popularidade do spin já passou. Actualmente, a dissociação cognitiva patológica, é a coisa em voga.
No cumprimento do papel institucional que lhe cabe, o presidente da Câmara enunciou de forma estóica um rol de argumentos positivistas acerca de Torres Novas na comunicação social recentemente. Até aqui tudo bem. Para atrair pessoas e investidores, há que enaltecer e adjectivar hiperlativamente os argumentos positivos disponíveis. O que é estranho, é toda a narrativa rodar exclusivamente à volta de turismo e cultura.
À medida que avançamos na leitura do artigo, percebemos que a história e a natureza, são as armas secretas. Precisamente o que não fizemos rigorosamente nada para conquistar, herdámos dos séculos passados e, a Câmara tem feito ponto de honra desprezar, destruir até.
Há ruinas na serra que testemunham esse desprezo. Há edificações na cidade equivalentes.
Se fosse enumerar aqui todas as passividades e actividades ruinosas que aconteceram e acontecem em Torres Novas nos últimos trinta anos, o jornal teria de incrementar várias páginas. Restringindo às áreas eleitas pela presidência para promoção, o turismo e a cultura: a anedota das piscinas (que foi o maior e melhor equipamento turístico do concelho). A anedota do largo do Virgínia (que é o maior e melhor equipamento cultural do concelho). O café concerto encerrado há mais de uma década. O programa das festas da cidade (o da que decorre e dos últimos vinte e tal anos). A lixeira oculta dentro das grutas e algares onde se forma o Almonda e onde residem pontos de elevado interesse arqueológico, geológico, científico e turístico. O matagal que teima em cobrir a Vila Cardílio ciclicamente. O castelo que... está ali, pronto. Tal como o paúl do Boquilobo e o parque natural das serras D'Aire e Candeeiros, estão lá, no sítio deles. As pegadas de dinossauro ora estão, ora não estão. Ali há milhões de anos mas, de vez em quando tiram folga. O museu industrial cuidadosamente restaurado, inaugurado sem cobre, bronze e latão (ou, o mistério da central eléctrica). As zonas verdes exclusivamente ajardinadas, com nada de natural ou autóctone, com flores de plástico pelo menos poupavam na água e manutenção. As cinco toneladas de lixo retiradas do querido e estimado rio por mãos voluntárias. O festival de cinema que acontece por iniciativa privada e voluntariado, que a Câmara não apoia mas aparece na hora da foto para facturar dividendos de popularidade, sem custos. Os criadores em diversas artes (literatura, poesia, música, pintura, ilustração, cinema, fotografia, para mencionar apenas as áreas em que conheço pessoalmente um ou mais torrejanos a actuar), condenados às edições de autor e/ou ao anonimato, sem um cêntimo de ajuda ou apoio de infraestrutura, promoção ou reconhecimento sequer, da autarquia. Um rancho folclórico que teve de ensaiar na rua, e ir a pé para actuar. Uma banda Operária com escola de música a funcionar num edifício com condições precárias. Devo continuar, ou é suficiente? Repararam que não mencionei a Fiação e Tecidos? Apenas por pura simpatia. Alguns dos exemplos foram entretanto acudidos, mas só depois da queda no charco e muito estrebuchar. A única cultura que emana da Câmara é conformismo. Estou um mãos largas com a simpatia. Escrevi isto sem uma única comparação com outras localidades, sem aludir a outras realidades de gestão autárquica no campo do turismo e cultura. Se o fizesse, o cenário passava de péssimo a desastroso.
Enquanto o presidente tentava vender turismo e cultura com nada em stock, produtores de azeite foram ao estrangeiro promover a excelência do produto e as qualidades óptimas da região, desta região. Aconteceram vitórias no desporto (diferente de futebol) protagonizadas por entidades e atletas torrejanos, notoriedade sustentada pela continuidade, não se trata de um golpe de sorte singular. Acontece também a segunda edição do festival de cinema Silenzio, com maior ambição que a precedente. Há quem venda o que não tem, desconhecendo o que tem para vender. Mas a festarola é o ponto alto da época, essa nunca falha. Sai mais uma rodada de minis que isto é que é cultura.



02/07/2026

Jornal Torrejano – Nº 1234 - É só uma fase

Jornal Torrejano – Nº 1234 – 03/07/2026

É só uma fase

O ciclo de vida de uma área de negócio (empresa, departamento, produto) compreende cinco fases: desenvolvimento, crescimento, maturidade, declínio e, extinção. Algures durante a fase de maturidade é onde se deve intervir, com o objectivo de evitar as duas fases seguintes. É durante o processo de maturidade que ocorrem tentativas de reinvenção, reestruturação, injecção de sangue novo. Profissionalmente, estive em ambos os lados da barricada, tanto contratado porque a empresa pretendia renovar, como dispensado pelos mesmos motivos. Tipicamente renovam-se quadros, mudam-se CEOs, tentam-se novas abordagens, diferentes estruturas orgânicas. Flutuações nos mercados financeiros acompanham estes momentos, dúvidas expectativas hesitações, fazem oscilar os valores de cotação.

Talvez por um narcisismo natural, ou por falta de imaginação, a tipificação do ciclo empresarial decalca o ciclo da vida humana. Também cinco fases: período pré natal, infância, adolescência, idade adulta, velhice. Sendo a morte a antítese da vida, faz sentido não ser mencionada sob o título, embora seja o desenlace inevitável do processo. A maturidade, fase crítica, perfeitamente identificada e definida no ciclo empresarial, ilude-nos no ciclo humano. Não depende directamente da idade biológica, flutua ao longo de todo o ciclo, podendo até, nunca ocorrer. 

A infância termina quando tomamos consciência da morte. Conceito partilhado por psicólogos, filósofos e autores literários, implica um degrau significativo para o início da maturidade. Despertar para a realidade de uma existência finita. Sendo um processo complexo e dependente de diversas variáveis, a maturidade nunca é absoluta, é um trabalho em curso, permanente. Necessidade ou vontade de reinvenção ocorre, com ou sem maturidade solidificada. Quando detectamos as primeiras limitações físicas, o início do declínio e, tomamos consciência da velhice, ou, em qualquer outra altura, como resposta a um evento traumático, pressão social ou ainda, por pura e simplesmente experiência de vida acumulada, subimos mais um degrau. A reinvenção pode perfeitamente ocorrer sem beneficiar do discernimento oferecido pela maturidade, configurando-se assim, errática, inoportuna, inútil. Ou mesmo contraproducente.

A excelente iniciativa Guardiões do Rio Almonda, estimulada e apoiada pela Câmara Municipal, em menos de três anos de existência retirou mais de cinco toneladas de lixo do rio. Considerando que se baseia em voluntariado e os meios disponíveis são essencialmente trabalho braçal, se fosse eu a mandar, elegia esta malta a candidatos para atribuição de medalhas de mérito. Fantástico.

Não tão fantástico é a informação que podemos retirar destes dados: a persistência de comportamentos danosos e irresponsáveis. O  civismo ausente e proliferação de javardos. Atingida a maturidade do projecto Guardiões do Rio Almonda, será vital introduzir reinvenção. Uma balança para pesar o lixo retirado do rio por mãos voluntárias, apesar da quantificação ser fundamental para gerar informação e avaliar o comportamento dos mercados na respectiva área de negócio, é um meio manifestamente escasso, e ligeiramente desfocado para o crescimento e longevidade do projecto. Como fica demonstrado pelos resultados de dois anos e tal de actividade, a necessidade anuncia-se tristemente vitalícia. A reinvenção, além da alocação de mais e melhores instrumentos operacionais, pode introduzir em paralelo a monitorização activa permanente do rio, prevenindo comportamentos abusivos e ilegais. A sensibilização dos cidadãos para a importância da salubridade do Almonda e o que de positivo isso trás para a comunidade, através de comunicação institucional pública de indicadores de salubridade, seria excelente para aproximar a população ao rio.

Apesar de Torres Novas não possuir ensino superior, acho perfeitamente exequível existirem protocolos com departamentos de biologia de universidades hospedadas noutras cidades, alinhados com os diversos programas de preservação ambiental e diversidade biológica existentes. Caso tenha passado despercebido, o programa de financiamento europeu LIFE, com orçamento anual de 600 milhões de euros, destina-se precisamente a este âmbito. De qualquer modo, as empresas que retiram dividendos directos e indirectos do rio, estão naturalmente posicionadas como potenciais patrocinadores destas e outras actividades. Os seus departamentos de marketing, cuja criatividade e eficácia foi já perfeitamente comprovada, certamente iriam agradecer a disponibilização de um argumento eticamente idóneo, socialmente e ambientalmente responsável, para variar.

Criadas condições favoráveis para que seja possível tudo isto acontecer, é fundamental que um conjunto de maturidades se encontrem e partilhem uma necessidade de reinvenção comum. Não me parece, de todo, cenário impossível. Caso contrário, passaremos à fase seguinte.




18/06/2026

Jornal Torrejano – Nº 1233 - CH4

Jornal Torrejano – Nº 1233 – 19/06/2026

CH4

Podemos enumerar os argumentos que habitualmente nos escudam de uma análise crítica, como se a escala económica, dimensão de mercado, localização geográfica, justificassem decisões péssimas, essencialmente motivadas por falta de verticalidade. Por sistema, quem manda neste cantinho à beira mar plantado, verga-se com facilidade a interesses prejudiciais ao país que lhe paga o ordenado base. A economia nacional contém vários exemplos de áreas de negócio a contribuir significativamente para o PIB rejeitadas noutras geografias. A indústria do papel, celulose, eucalipto, é exemplo. Somos orgulhosamente os maiores da Europa nesse campo. Porquê? Porque mais ninguém o quer. Altamente poluente, degrada os solos, extingue ecossistemas, consome quantidades absurdas de água potável, é desinteressante para qualquer ser humano com dois dedos de testa, preocupado com a sustentabilidade, com o ambiente, com as consequências a médio e longo prazo na ecosfera, o sítio onde vive e viverá a sua descendência.

Aquilo que era bom, sustentável, natural, pouco ou nada poluente, e, curiosamente, tradicional, foi-se para outras paragens, onde a verticalidade autóctone não se importou de pagar o complemento salarial, subsídio de refeição e comissões, a quem o salário base ficava curto para as ambições. Trocaram pescado, azeite, fruta, cortiça, cereais, leite e derivados, por eucalipto.

Em traços gerais foi assim que chegámos aqui. A trocar o bom pelo péssimo e a desculparmo-nos disso com a nossa dimensão reduzida e infeliz localização nos confins, no extremo do mundo civilizado. Oficialmente, a falta de peso negocial eliminou qualquer outro facto. Quando na realidade, fomos comprados. Embora só uma elite muito exclusiva tenha recebido um cheque grande e gordo. Para o resto da população, empreendedora, foram os largos milhões do fundo social europeu a fundo perdido nos anos 80 e 90. Ou ninguém discorreu o que era aquilo?

Desperdiçados em futilidades os fundos destinados a preparar as microempresas e empresas familiares para continuar a produzir excelência mas num mercado maior e mais competitivo, restou-nos declarar falência e passar a importar os mesmos bens mas com qualidade medíocre. Também em traços gerais, a nossa atitude colectiva tem sido comer o bife sem querer saber como é tratada a vaca. Só acordamos para a realidade que deliberadamente fomos ignorando, ao longo de décadas, quando ela nos arromba a porta da frente com estardalhaço.

Justificando com a instabilidade geopolítica actual a par da dependência energética e metas de redução de consumo de combustíveis fósseis, o governo declarou o biometano como activo estratégico, usando na mesma frase expressões como, "agilizar licenciamentos", "atrair investimento" e, "alinhamento europeu". A expectativa é chegar a 2030 com cerca de um décimo do consumo de gás natural transitado para biometano. A Mota Engil anunciou a instalação de cinco centrais de biometano em território nacional até ao fim do ano corrente. Portanto, ao que tudo indica, o processo está em marcha, imparável. Muitos clientes domésticos receberam há uns meses uma comunicação do fornecedor de gás natural a informar que, a partir de determinada data, já não seria fornecido inteiramente gás natural mas sim uma mistura com hidrogênio. Já era todo este alinhamento a ser posto em prática.

As guerras guerrinhas e escaramuças pelo planeta fora, não vão abrandar, a instabilidade geopolítica vai continuar. Os Trumps desta vida, uma vez instalados, já nada os arranca de lá. A invasão do capitólio foi ilustrativa, era o início de uma guerra civil. Se não for o mesmo fantoche a ocupar o lugar, será outro com o mesmo guião. Previsivelmente, continuará a ser justificável a diminuição do consumo de energia oriunda de determinadas geografias, no sentido de reduzir a dependência.

Tenho toda a empatia com a população de Árgea, concordo com os protestos, defendo a liberdade cívica para dizer não a mais um atentado à saúde e bem estar das pessoas e, eventualmente, a médio prazo, um crime ambiental anunciado. A memória da Fabrioleo ainda está bem fresca. Mas temo que sejamos impotentes para deter o "progresso". Assim como não levo a bem a opção de varrer o problema para a porta de outrem. Uma argumentação sólida tem de obrigatoriamente obedecer a uma análise criteriosa da questão como um todo, propondo também alternativas viáveis. Começando por compreender porque é que exclusivamente Árgea responde positivamente aos parâmetros estipulados para a implementação de uma unidade industrial com estas características. Um projecto de dimensão assinalável sem um plano "B"? Sem vias de comunicação entre as partes, só é possível presumir pressupor e conjecturar.

Encurralar um animal não é boa ideia. Quando ele percebe que a única saída é derrubar-nos...




06/06/2026

Jornal Torrejano – Nº 1232 - Minudências que consomem

Jornal Torrejano – Nº 1232 – 05/06/2026

Minudências que consomem

A micro gestão, em inglês micromanagement, é um dos erros de gestão mais combatido nas estruturas empresariais. Caracterizada pela centralização de decisões, ausência de delegação de tarefas e responsabilidades, obsessão com detalhes e, comunicação unilateral entre camadas hierárquicas. O controlo excessivo e a supervisão minuciosa de operações banais repetitivas, leva a consequências nefastas nas organizações. Desmotivação dos colaboradores, rotatividade frequente dos quadros, são consequência directa de um sentimento de desvalorização, insinuando desconfiança nas capacidades dos funcionários. Além de abortar por completo a proactividade e a possibilidade de inovação no sentido ascendente. O burnout dos decisores, sobrecarregados, leva a efeito de bola de neve e o que devia ser liderança resume-se a chefia. Estes são alguns dos resultados da micro gestão. Sendo o produto final, a fraca produtividade do todo.

Saber delegar, valorizar os colaboradores e, respeitar todas as funções na estrutura é o caminho. Um dos pontos que David Ogilvy sublinha nos seus livros é, tratar pelo nome todos os colaboradores da empresa, desde a senhora da limpeza ao director financeiro. Cria uma coesão e espírito de equipa que, resultam em empenho, em produtividade. Ogilvy não tirou a esfregona das mãos da senhora da limpeza, não fez ele o relatório de contas do trimestre. Apenas os tratou diariamente pelo nome, durante o desempenho das suas funções profissionais e, perguntou de quando em vez como iam as coisas lá por casa. O chão esteve sempre impecavelmente limpo e as contas bateram sempre certo. Foi com esta atitude que construiu a cultura da Ogilvy and Mather.

Quando o desleixo e a indiferença são visíveis, sinalizam com frequência as consequências da micro gestão.

Um presidente de câmara pode perfeitamente ocupar o seu tempo com uns vidros partidos numa escola, resultado de actos de vandalismo perpetrados por crianças/jovens. Mas um Presidente de Câmara, investe o seu tempo a preocupar-se com a criação e dinamização de actividades formativas, actividades lúdicas, para crianças/jovens, evitando que enveredem pelo vandalismo. Ou, a apoiar, motivar, estimular, quem o faça. Recordo-me de dois ou três nomes que, no passado, tiveram papéis socialmente interventivos relevantes precisamente neste enquadramento. Na melhor exibição de ingratidão, atitude tipicamente torrejana, são nomes varridos para debaixo do tapete, não constam em nenhum painel de azulejo numa fachada de um edifício, vá lá saber-se porquê.

Resolver os vidros partidos, delega-se. Um atraso numa obra, delega-se. Um incumprimento contratual de um fornecedor, delega-se. Senão, para que servem os praticamente mil funcionários numa Câmara Municipal? Actos de vandalismo, não se ignoram nem se delegam. São sintomas sociais que devem ser endereçados com a responsabilidade do cargo de liderança. Optando por ignorar agora e empurrar o problema para jusante, nesse ponto, a única ferramenta disponível é a repressão, o castigo, a penalização. Entre reforço social e reforço policial, opto pelo primeiro. Assim fui formado. Mesmo sem reconhecimento institucional, posturas exemplares perduram no tempo.




19/05/2026

Jornal Torrejano – Nº 1231 - Todo bem vestido e sem sítio para ir

Jornal Torrejano – Nº 1231 – 15/05/2026

Todo bem vestido e sem sítio para ir

Existirá sempre um leque de temas infelizes, más decisões, incompetências, desleixos, corrupção, para alimentar qualquer cronista em qualquer jornal local. A abundância temática por vezes é tal que se perde o foco no essencial e deriva-se para o acessório. A razão de ser dilui-se na fertilidade da oferta e perde a objectividade do propósito.

O caso torrejano podia ser ilustrativo desta realidade, embora me pareça algo tão transversal que dispense exemplos paradigmáticos.

O que singulariza o caso torrejano, é o facto da fonte temática se reduzir a um único partido político e, três pessoas. Para uma janela temporal superior a trinta anos. Como é que um universo tão pequeno (sim, no figurado também) gera tanta matéria prima negativa, durante tanto tempo?

Desde que o homem se junta em grandes grupos, formando comunidades, regista-se invariavelmente uma prioridade. A criação de um espaço de convívio social. Um espaço comunitário, tipicamente central, na orgânica urbanística dessa sociedade. A relevância deste espaço é patente inclusivamente nas sociedades nómadas. O simbolismo da centralidade revela a importância atribuída ao local e ao que lá se passa.

Nas civilizações que serviram de berço à ocidental contemporânea, a nossa, além da centralidade urbana, a monumentalidade da arquitectura e a sofisticação das edificações dedicadas à função de espaço para convívio social, evidenciam a mesma importância, o mesmo valor, a mesma prioridade. A ágora grega, o fórum romano, eram locais destinados a potenciar a manifestação de ideias, a partilha de experiências, o comércio, a discussão política. A interacção humana.

Perfeitamente individualizado, separado do entretenimento, a decorrer noutros espaços, teatro circo, da boémia, nas tabernas e bordéis e, da religião, em templos de culto, o convívio social civilizado viajou da palhota central, da tenda nómada, e ficou imortalizado em pedra requintadamente esculpida pelas civilizações que precederam a nossa.

Entrelaçado no entretenimento e no comércio, por influência da espinha dorsal capitalista que tanto nos caracteriza actualmente, o espaço de convívio social vive tempos difíceis. A speaker's corner perdeu a intelectualidade para a vulgaridade e o fórum passou a ser sinónimo de consumismo. No entanto, as sociedades adaptaram-se e o convívio social civilizado permanece, resiliente, em espaços públicos (onde os há) e, em tertúlias privadas.

A linha de coerência evidente na política, de mais de trinta anos e três indivíduos, em Torres Novas é, o estrangulamento sistemático dos espaços de convívio social. Potenciar o entretenimento populista brejeiro e forçar o consumismo de frenchise, em simultâneo. Mentirosamente anunciados como cultura e progresso. Decisões políticas anularam o convívio social comunitário, eventualmente produtivo, substituindo-o pela banalidade inconsequente garantida. Uma vez é casuística, duas ou mais, é padrão.

A apatia generalizada, a indiferença instituída, o desleixo vulgarizado, não são consequências do ar que se respira ou da água que se bebe nestas paragens. Muito menos bruxedo. São o preço que se paga pela remoção sistemática do convívio social civilizado da comunidade.

Distraídos pela abundância da oferta negativa, endereçada por automatismo acrítico, condicionado pela visão de túnel, deixa as questões pertinentes e as evidências claras que as sustentam, passar incógnitas. Como uma pulga de peruca e óculos escuros na pelagem de um camelo imundo.




02/05/2026

Jornal Torrejano – Nº 1230 - Resistência

Jornal Torrejano – Nº 1230 – 01/05/2026

Resistência


«Chegou a altura de lançarmos um grito de revolta e de alerta. Não era um país com este contexto que queríamos quando fizemos o 25 de Abril».

«É inaceitável a crescente injustiça social, o fosso cada vez maior que se está a cavar entre os mais ricos e os mais pobres. Mas que raio de país é este, mas que raio de Justiça é esta?».

«Estamos a contar mal a luta antifascista às gerações mais novas. É preciso continuar a lutar pelo esclarecimento, e para evitar o branqueamento do fascismo, para que a memória não se perca.»

Presidente da Associação 25 de Abril, Capitão de Abril, Vasco Lourenço.

Desde estas palavras passaram dezasseis anos. Nesse período aconteceu mais uma intervenção do F.M.I. em Portugal, um primeiro ministro aconselhou a população portuguesa a emigrar, outro primeiro ministro foi preso, surgiu o Chega, e, a esquerda, decidiu que nada disto era pertinente, enveredando por outras prioridades.
Há uns dias voltei a prestar atenção a declarações de Vasco Lourenço. Dezasseis anos depois, mantém a coerência, sublinhando a urgência. O semblante cansado não se deve exclusivamente ao peso da idade, deduzo. Compreensível.
Comemorar, celebrar, é importante, sim. Mas fazê-lo com integridade devia ser condição obrigatória. Reafirmar o compromisso com os valores da revolução com a mesma seriedade que se assume a degradação escabrosa das escolas do concelho, se recebe uma petição com três centenas de assinaturas a denunciar ausência de saneamento básico, se inaugura com pompa e circunstância a plantação de uma palmeira, entretanto esquecida, se mantém um equipamento municipal inoperante após mais de um milhão de euros gastos em manutenção e remodelação, se comunica um saldo positivo de mais de três milhões de euros, qual CEO sorridente perante os accionistas felizes, cinquenta e dois anos após o término das trevas e, trinta anos consecutivos com o mesmo partido no poder, parece caricatura mas é retrato.
Uma Câmara Municipal não é uma empresa privada a navegar num oceano capitalista. Não visa o lucro, visa a satisfação das necessidades da população que SERVE. Antes não se fazia porque a dívida à banca era sufocante, não permitia fazer. Qual é a desculpa agora?
Torres Novas acolhe uma exposição sobre os cinquenta anos da Constituição da República Portuguesa. É uma oportunidade óptima para os torrejanos darem especial atenção ao artigo vinte e um. Consagra o Direito de Resistência. Estabelece que todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda direitos, liberdades e garantias fundamentais e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade.
Sim, eu que sou um pouco mais velho que a revolução, comemoro especialmente isto.




16/04/2026

Jornal Torrejano – Nº 1229 - Miau

Jornal Torrejano – Nº 1229 – 17/04/2026

Miau

Se eu tiver 20 ovelhas e o meu vizinho nenhuma, em média, cada um de nós tem 10 ovelhas. Sem análise crítica, a estatística pode espelhar tudo e qualquer coisa, menos a realidade. Mas são necessários números para iniciar todo o processo. Sem recenseamento, não há números sequer.

Uma gata fica apta a reprodução por volta dos 8 meses de idade. Uma gata tem geralmente 3 ninhadas por ano. Cada ninhada tem geralmente 5 crias. Uma gata de rua tem uma esperança média de vida de 7 anos. Com tudo a correr dentro da média, uma única gata, gera 105 gatos ao longo da sua vida.
Considerando que as crias fêmeas ficam aptas para reprodução aos 8 meses, é fácil perceber que ao longo dos 7 anos de vida da matriarca, o crescimento da população de gatos é exponencial. Daí a importância de controlo populacional via esterilização.

Os gatos, silvestres e semissilvestres, o que vulgarmente chamamos "gato de rua", são naturalmente esquivos. Só com meses, por vezes anos, de convívio com seres humanos é que se torna possível o contacto físico. Alguns, nunca. Para os esterilizar, primeiro, tem de ser possível apanhá-los. É aqui neste ponto que os cidadãos, voluntários e associações sem fins lucrativos que cuidam das colónias de gatos de rua, já com confiança conquistada à maioria deles, se tornam fundamentais no processo. Os idiotas de opinião que não se deve alimentar, desparasitar, disponibilizar abrigos, aos gatos de rua, são autistas aos factos: Se o animal não for alimentado vai revirar caixotes do lixo à procura de comida, vai caçar pequenas aves, roedores e répteis até à extinção, causando danos significativos no ecossistema. Se não for desparasitado regularmente, vai contrair e espalhar doenças. Sem contacto com seres humanos, será dificílimo capturar o animal para castração e, mesmo que o consigam, tenho pena do veterinário e auxiliar que tentar executar a cirurgia. Cuidar de colónias de gatos, é a liberdade cívica a actuar onde a decência institucional se demitiu.

O governo português, de uns anos a esta parte, providencia uma verba anual às câmaras municipais destinada à castração de animais de rua. Associações e particulares podem (devem) solicitar aos serviços veterinários das respectivas câmaras municipais a castração, sem custos. Esgotada essa verba e perante a persistência do problema, a Câmara Municipal de Torres Novas, atribuiu um financiamento de 7.000€ para as castrações.

Portugueses que somos, preferimos usufruir desta quase borla nos animais domésticos, poupando uns cobres na castração do bichano lá de casa no veterinário da Câmara, em vez da clínica privada. Subtraindo assim eficácia na resolução do problema dos animais errantes. Resultado: veterinários das câmaras municipais atascados em trabalho e, as colónias de rua a continuar a crescer.

Quem já passou pelo processo com animais de rua, ficou a saber em detalhe como tudo funciona.

Primeiro, temos de conseguir capturar o animal. A Câmara Municipal pode providenciar armadilhas, mas, como as que possui são em número muito limitado, sugere ao cidadão que capture o animal pelos seus próprios meios.

Segundo, é da responsabilidade da Câmara Municipal assegurar a recolha e posterior entrega do animal, mas, é preciso uma transportadora. A Câmara pode providenciar transportadora, mas, como as que possui são em número muito limitado, sugere ao cidadão que use a sua. E, já agora, a sua viatura particular para entregar e recolher o animal.

Terceiro, é condição obrigatória jejum de 12 horas para a cirurgia. Caso o cidadão não o consiga assegurar (como pode, se é um animal de rua?), o bicho é recolhido, fica enclausurado na transportadora durante 12 horas nos serviços veterinários da Câmara Municipal, após as quais é operado e, devolvido dentro da mesma transportadora. Invariavelmente encharcado em urina, fezes, e sangue. Destinado a ser devolvido imediatamente à rua.

Quarto, a cirurgia é feita sob anestesia. Ou o cidadão providencia o período de recobro, ou o gato é atirado à rua a cambalear, ainda meio adormecido, sujeito ao que possa acontecer. Cara ou coroa. Ou sobrevive, ou morre. Uma vez que não se pratica a eutanásia, deixa-se a sorte decidir.

Seja como for, garante-se temporariamente a redução do número de animais errantes. E isso é sempre uma estatística favorável às políticas e aos políticos. A estatística confirma ter sido uma óptima ideia. Confirma que o sistema funciona. Não ilustra como e em que condições. Os números? Ninguém sabe. Não existe recenseamento. Mas, se a totalidade da verba fosse gasta exclusivamente em castrações de gatas de rua, dava para 74! Faz-se a matemática ao contrário. A verba determina o recenseamento. Oficialmente, no concelho de Torres Novas, existem 74 gatas. Ponto. Porque a Câmara Municipal tem sempre razão e está empenhada em efectivamente resolver o problema. É impossível gente tão importante, tão bem formada, tão bem vestida, estar-se a borrifar.




03/04/2026

Jornal Torrejano – Nº 1228 - O castelo fácil

Jornal Torrejano – Nº 1228 – 03/04/2026

O castelo fácil

Uma estratégia comercial converteu-se em moda social. Não é propriamente inédito, diversas tentativas de estimular o consumo fizeram-no inúmeras vezes. Refiro-me especificamente à "experiência". Produtizou-se a "experiência" com o intuito de revitalizar turismo, restauração, hotelaria, entretenimento e cultura.

Jantar fora é banal, experiência gastronómica já não. Mesmo que se coma exactamente a mesma coisa, no mesmo sítio, em ambas as situações. A distinção semântica cria percepções diferentes, simulando patamares sociais desnivelados. Uma, é apenas refeição para o Zé. Outra, é uma experiência fotografada, filmada, partilhada e comentada nas redes sociais. Mas o Zé é o mesmo.

Agora que satirizei e reduzi o ego da experiência à sua justa insignificância, já me sinto confortável para falar da experiência onde ela é útil para enriquecer a consciência e criar conhecimento.

O memorial do holocausto em Berlim, foi construído numa arquitectura que propositadamente causa desequilíbrio físico e desorientação ao visitante. A sala museu documental é subterrânea, sem clarabóias, impondo a sensação de opressão e claustrofobia. Em todo o monumento não existe qualquer decoração, qualquer sugestão de beleza ou conforto. A experiência da visita é profundamente deprimente a par de solene. Como a morte de milhões de seres humanos deve ser. Todo o monumento foi objectivamente projectado para infligir experiência. Sem na realidade existir no local qualquer cemitério, depósito de cinzas, um singular cadáver, qualquer dispositivo destinado à tortura ou causar a morte, a sensação de tudo isso é omnipresente. Uma arquitectura inacreditavelmente hostil conduz o visitante ao estado de espírito certo, susceptível de perceber a mensagem. De forma indelével. A história é transmitida por via emocional. A experiência resulta em conhecimento.

Os castelos, tanto os de função militar como os decorativos, foram construídos em locais altos por várias razões. Sendo as principais, o maior alcance da vista e, a inacessibilidade. Repito: A inacessibilidade. Ver mais longe, para identificar qualquer potencial ameaça o mais precocemente possível. Dificultar ao máximo a aproximação da ameaça, com acessos tortuosos, difíceis e desgastantes. A subida íngreme e acidentada até ao (preferencialmente) único ponto de acesso ao interior, garantia que o inimigo chegava exausto, sem forças para lutar. O portão principal, no fundo de um funil de pedra, permitia que uma pequena força conseguisse deter e aniquilar invasores em número substancialmente superior. Ali chegados, viam-se entalados num espaço exíguo sem mobilidade, entre as armas dos defensores frescos à sua frente e a pressão dos restantes invasores a empurrar nas suas costas. Exaustos pela subida exigente, as vantagens somam do lado dos defensores do castelo. Uma zona de matança perfeita.

Diversos castelos europeus têm na sua história episódios que demonstram a eficácia desta arquitectura e posicionamento estratégico. O de Torres Novas também.

A construção de acessibilidade ao castelo, pode ser (mais) um exemplo ilustrativo do divórcio entre o município e a cultura. Pode ser (mais) um exemplo de delapidação do património. Pode ser (mais) um exemplo de erosão da identidade de Torres Novas. Mas desconfio que se trata apenas de (mais) um exemplo de oportunismo de candidaturas a financiamento. Se um dia abre programa de financiamento para formar palhaços, Torres Novas derruba o castelo e monta uma tenda de circo. Defendem-se dos invasores atirando tartes.

A experiência, seja pelo prisma de moda social, seja pelo prisma pedagógico, passa a oportunidade perdida se não acontecer mais nada além da iluminação LED e passadiços. Até parece que Torres Novas e seu castelo não têm história que justifique outro género de abordagem. Para quem não gosta de ler e só vê os bonecos, basta ir à praça 5 de Outubro olhar para o painel de azulejo que lá está. Mesmo degradado e sem manutenção, dá para ter uma ideia da história que nos assiste. Como se discute actualmente noutros locais noutros ambientes: o facilitismo só traz malefícios. Entre o pedagógico e o decorativo, não me parece existir dúvida acerca de qual é fácil.




19/03/2026

Jornal Torrejano – Nº 1227 - Zôon politikon

Jornal Torrejano – Nº 1227 – 20/03/2026

Zôon politikon

Não posso, nem quero, precisar um ponto no tempo para quando se iniciou o processo mas, decorreu algum, desde que existe investimento significativo numa engenharia social destinada a politizar o maior número possível de aspectos da vida do cidadão. A sexualidade, a alimentação, o vestuário, utilitários domésticos, meios de transporte, foram politizados.

Comportamentos sociais, preferências pessoais, hábitos de consumo, foram politizados. Não estamos longe do pináculo do processo, onde, rigorosamente tudo, estará politizado. Partidarizado. Polarizado. Até uma escova de dentes pode vir a denunciar preferências ideológicas. A cultura de cancelamento compete taco a taco com a santa inquisição.

Existe uma pressão inequívoca aplicada ao cidadão para que ele tome uma posição. Para que ele assine por um clube. Já que o interesse do cidadão pela política está reduzido a mínimos desprezíveis, como demonstrado pelos números elevados de abstenção nos actos eleitorais, leva-se a política ao cidadão de outras formas. A parábola da montanha e Maomé.

Além do óbvio, dividir para reinar, reiterado por tantos impérios na miserável cronologia humana, há uma lógica inegável de causa efeito. Se se estão a formar equipas, inevitavelmente, irá acontecer um jogo.

A engenharia social opera em múltiplos parâmetros simultaneamente, afinados para produzirem resultados que oscilam entre o muito provável e o garantidamente certo. Dividir para reinar, aglomerar pessoas por denominador comum arbitrário, são degraus num percurso com destino previsível. Depois de fabricado o inimigo, entra a dessensibilização do cidadão para a guerra e implícitos horrores, oferecendo miséria e violência em formato de entretenimento para as massas. Normalizar divergência de interesses resolvidos á bofetada, envenenando a via do diálogo e diplomacia, manchando-a com fake news, incumprimento de compromissos e outros insucessos, reais ou inventados. Subvertendo o significado das palavras, digno de pesadelo orweliano, instrumentalizando a falta de ética mediante circunstância conveniência ou argumentação, os canalhas são sempre "os outros".

A desumanização e demonização dos alvos, inibe a empatia, o remorso, a culpa e por último, a responsabilidade, nos actos hediondos cometidos sobre eles. Ninguém hesita em esmagar uma viúva negra com a bota, sem remorsos. Lá ia ela descansada da sua vida, a pensar caçar um mosquito para a janta, não se meteu com ninguém, não provocou ninguém, ingénua vítima de péssima imagem pública, pimba, já foste. Apenas culpada de ser demasiado pequena para possuir tanto poder.

A ciência diz-nos que um ser humano mentalmente são, sozinho, isolado, não tem propensão para a violência. Em grupo, o caso muda radicalmente de figura. A ciência diz-nos também que, o distanciamento do indivíduo ao acto violento, tem um papel fundamental. Matar com as próprias mãos, pela proximidade física, contacto directo com a pele da vítima, é raro. Matar com uma espada, cria distanciamento, já se torna mais fácil, o peso moral diminui. Com uma arma de fogo, o distanciamento é ainda maior, torna-se ainda mais fácil, foi a bala não fui eu. As tripulações dos bombardeiros olham para si próprios como aviadores, e não soldados. Os controladores remotos de drones, são classificados como especialistas em alta tecnologia, e não soldados. Seguindo a lógica desta escala até uma sala climatizada, luxuosamente decorada, cadeiras ergonómicas em pele de búfalo, mesa de mogno com motivos embutidos em madeiras exóticas, esticar um dedo, carregar num botão e, matar milhares de seres humanos no outro lado do planeta, chama-se... pequeno almoço.

O que descrevo atrás, explica com mais ou menos detalhe porque, tomar conhecimento pela televisão de crianças decapitadas e com as tripas de fora é menos chocante e preocupante que a eventual subida da prestação da casa. Explica. Mas não justifica.

A fase final desta culinária altamente elaborada, transferir a responsabilidade dos actos horrendos perpetrados pelos governantes para os cidadãos, porque, afinal, foram os cidadãos que os elegeram em acto democrático perfeitamente legal, fechará o círculo. E então, só então, serão exigidas justificações.

Assegurar a sobrevivência e bem estar à custa da vida de outrem, encaixa na definição de parasita. Preferem ver lobos e tubarões quando se olham ao espelho, mas a realidade devolvida pelo reflexo é de carraças e pulgas.

Segundo Aristóteles, o homem é um animal social. Á organização social, chamamos política. Logo, o homem é um animal político. Por a existência humana ser indissociável da tecnologia, a mais recente proposta para a designação que nos identifica é, homo techno-sapiens, substituindo o anterior homo sapiens sapiens. Sociais, políticos e tecnológicos, vazios de humanidade, pode-se remover o homo com elevado grau de segurança.


Para o leigo, a tecnologia é indistinguível da magia.

Terceira lei de Clarke.

(Arthur C. Clarke, 1917/2008).




05/03/2026

Jornal Torrejano – Nº 1226 - Gestão de expectativa

Jornal Torrejano – Nº 1226 – 06/03/2026

Gestão de expectativa

Durante o meu percurso profissional tive a oportunidade de frequentar diversos workshops e formações externas proporcionados pelas empresas onde trabalhei. Num desses momentos formativos abordou-se um tema que me interessou bastante, não só pela pertinência para as minhas funções, mas também pela aplicabilidade na vida pessoal: a Gestão de Expectativa. Posteriormente indaguei mais sobre o assunto e fiquei surpreendido pela sistematização e transversalidade do tema.

Área comercial, recursos humanos, implementação de projectos, psicologia, relações humanas, relações públicas, investigação e desenvolvimento, tudo o que envolva pessoas, produtos, serviços e desempenho funcional, a gestão de expectativa tem um papel crucial. Não se resume a encaixar a oferta com a procura numa união sem costuras. Essencialmente trata-se de tornar a comunicação transparente, isenta de ambiguidades, de modo a que todas as partes envolvidas possam tomar decisões perfeitamente alinhadas com os seus objectivos, de forma consciente e esclarecida. Obter exactamente aquilo se estava à espera. Eliminar a frustração, o engano, a insatisfação.

Ajuda à concretização de negócios, sem atritos e desilusões. Ajuda a que as pessoas se entendam, evitando discussões de malas à porta, incompatibilizações irreversíveis, mau estar, ambientes e relações tóxicas, infrutíferas. No limite, evita despesas supérfluas com advogados.

Olhando em retrospectiva, assisti a uma formação patrocinada pelo mundo corporativo, a dizer-me que a honestidade compensa. A mesma coisa que quarenta anos antes a minha mãe me tinha ensinado. Redundante, portanto.

Aplicando as linhas orientadoras da gestão de expectativa à política, saltam imediatamente à vista algumas incompatibilidades. Não prometer o que não se consegue entregar, será talvez a mais evidente. Fornecer exactamente o que se prometeu é fundamental para uma relação saudável, de confiança. Comunicar de forma clara, sem zonas cinzentas, sem ambiguidades, também sobressai. A possibilidade de interpretação múltipla, tão útil a fornecer meios de fuga aos políticos, ficaria obliterada.

Essencialmente, a gestão de expectativa, vincula ao cumprimento. Conceito totalmente incompatível com a política.

O prisma ético implícito na gestão de expectativa é incontornável. Por muito latim que se gaste a tentar lubridiar a realidade, ela mantém-se irredutível. Manipular a percepção da mesma, é eticamente errado e moralmente indefensável. Quando a entrega difere da encomenda, algo de errado se passa. Quando o Ministério Público olha e vê crime, a Câmara Municipal olha e nem processo disciplinar vê, durante anos a fio. Algo de errado se passa. Os advogados aumentam a facturação.

Confirmando a fatalidade melancólica tantas vezes usada para nos ilustrar como povo, na política, mentira e manipulação são virtude. Lamentavelmente, quem ousa exigir honestidade e cumprimento na política, é adjectivado de ingénuo, infantil, inexperiente. Em suma: Otário. Se não tivesse obtido a confirmação na actividade profissional que a honestidade compensa, diria que a minha mãe tinha cometido um erro.

Já lá vão uns meses com a nova gestão autárquica. A oportunidade de marcar a diferença está a esvair-se em decisões inconsequentes, passividade agressiva, mediocridade continuada, prioridades trocadas. Foi prometida mudança, para melhor. Pelo menos, assim foi entendido. Outra coisa qualquer, implicaria um erro de interpretação colectiva monumental. A existir por ali alguém ciente dos conceitos de Gestão de Expectativa, a mensagem é clara: Baixar a expectativa para mínimos nunca vistos. Só mudaram as moscas.




21/02/2026

Jornal Torrejano – Nº 1225 - As cinco depressões do nosso descontentamento

Jornal Torrejano – Nº 1225 – 20/02/2026

As cinco depressões do nosso descontentamento 

O interesse do homem pelos movimentos e ciclos astrais é milenar. Por todo o planeta, monumentos e descobertas arqueológicas revelam esse interesse. Primariamente motivados pela passagem das estações do ano, ciclo do qual dependia o sucesso da agricultura, vital para a sobrevivência, até outras previsões, mais ligadas à superstição, embora calculadas por uma proto ciência baseada essencialmente no registo de acontecimentos coincidentes, por vezes justificados por vezes casuais, retiravam-se interpretações dos tempos por vir. Eventualmente formando credos e cultos que evoluíram para o formato da religião organizada.

Saber, representa poder. Reis elevaram-se, faraós caíram, ora por "adivinharem" eclipses solares e lunares com exactidão, ora por falhar em prever anos de seca extrema. As cheias anuais do Nilo eram vitais tanto pela água doce, como pela fertilização dos solos com os sedimentos arrastados de outras paragens pela corrente. Falhando o ciclo, haveria fome doença miséria. O reino ficava fraco, exposto à cobiça de outros, caía.

As cheias do Tejo, rio que nasce em território espanhol, tiveram exactamente o mesmo protagonismo funcional para a vida agrícola do Ribatejo, entretanto divorciada dos ciclos naturais por pressões económicas, não tanto pela necessidade de consumo dos bens alimentares ali produzidos. As cheias na planície aluvial do Mondego, rio que nasce em território português, encaixam em ciclos idênticos de fertilização dos solos.

Na realidade, o aproveitamento político dos ciclos naturais e de eventuais soluços disruptivos com os quais a imprevisibilidade da natureza ocasionalmente nos reduz à nossa insignificância, é milenar. O aproveitamento político, ora reforçando o poder instituído, ora determinando a sua queda, ora via superstição, ora via conhecimento científico, é um facto comum na história da humanidade. Não deveria ser surpresa. Dá nojo, mas não surpreende.

Enquanto os idiotas que nos governam proferiam frases insultuosas desprovidas de senso, exibindo escandalosamente na comunicação social a sua ignorância e incompetência com o orgulho de quem cometeu uma asneira monumental à vista de todos mas ainda não deu por isso, a sociedade civil mexeu-se. Fez o que estava ao seu alcance para ajudar quem necessitava de ajuda.

Voluntários apareceram sem ser chamados, de pá e vassoura na mão e ajudaram a limpar o lixo, a desimpedir as vias permitindo a circulação. Anónimos foram ao supermercado depois de saírem do trabalho, encheram o carro com os bens que o bom senso lhes dizia serem precisos e puseram-se a caminho das localidades mais afectadas. Gente que se viu obrigada a fazer 100 quilómetros para comprar combustível, quando chegava à caixa da estação de serviço para pagar, descobria que a despesa já estava paga. Por alguém que entretanto se tinha ido embora, sem esperar por um agradecimento. Empresários do turismo que disponibilizaram a totalidade dos serviços das suas unidades hoteleiras, sem custos, a quem precisasse, sem convidar as televisões para vir testemunhar. Empresários da construção civil que disponibilizaram matérias primas e transporte das mesmas, de borla ou a preço de custo, sem mostrar o nome ou logotipo da empresa em lado nenhum. Profissionais das mais diversas áreas que ofereceram os seus braços de trabalho sem cobrar honorários.

Se há alguém que está de parabéns é o Zé Povinho. O anónimo que fez o que pôde. E para o fazer, pagou IVA, pagou Segurança Social, pagou IRS/IRC. E pagou portagens na autoestrada. Porque esse sistema, curiosamente, manteve-se em pleno funcionamento, não houve intempérie que o afectasse. A isenção de pagamento veio depois e, entretanto, já desapareceu, mais rápida que ventos ciclónicos. Para este Zé Povinho, verdadeiramente humano, heróico, a cor da pele, a maneira de vestir, ou a adoração de um personagem imaginário diferente do seu, influenciaram zero.

A falta de ordenamento do território, a falta de manutenção preventiva, o licenciamento para construção à la carte, a desarticulação dos meios de resposta, as obras e intervenções fundamentais remetidas para o fundo da gaveta, as aquisições milionárias de equipamentos inadequados, a perigosidade das comunicações assentarem exclusivamente em meios digitais, as consequências deste rol de inépcias, os druidas previram, mas os governantes ignoraram.

Décadas sucessivas, governos sucessivos com a mesma postura. A chuva e o vento vieram pôr a nu as consequências. Especialmente para cidades com rios a passar dentro do perímetro urbano, esta foi a sirene de alerta. Há trabalho a ser feito, prioridades a serem revistas. Palmadinhas nas costas quando se anda a correr atrás do prejuízo, fica mal.

Só se dão parabéns, se for caso disso, no fim, com tudo resolvido. Tal como a ópera só termina depois da senhora gorda cantar. Então aplaude-se, não antes.




05/02/2026

Jornal Torrejano – Nº 1224 - Cristina

Jornal Torrejano – Nº 1224 – 06/02/2026

Cristina

Quando o furacão Katrina arrasou New Orleans em 2005, demorou quatro dias para que água potável chegasse às vítimas. Isto num dos países mais desenvolvido do planeta. Onde ocorrem eventos climáticos extremos, furacões ciclones tornados, com frequência.

Em Portugal a recente tempestade Kristin, depois de tão intensa intimidade julgo legítimo poder chamar Cristina, classificada como "depressão", com ventos na casa dos 150km/h, intensidade bastante inferior à de um furacão, veio pôr a nu uma série de fragilidades.

O desleixo a que foi votada a orla costeira, sem manutenção preventiva adequada a enfrentar a erosão natural, quanto mais eventos climáticos excepcionais, arrasou praias e localidades cuja principal fonte de rendimento é o turismo.

O desleixo a que os leitos e margens das linhas de água e rios foram votados, bastando um inverno um pouco mais rigoroso para revelarem capacidade débil, transbordaram causando inundações, dependendo da morfologia do terreno, algumas bastante extensas.

A falta de eficácia do escoamento de águas pluviais em ambiente urbano, no limite adequado ao inverno médio mediterrânico, insuficiente para qualquer coisa mais que isso, provocaram inundações em casas, prédios, ruas, estradas.

As consequências da devastação dos fogos florestais e as consequências da exploração agrícola intensiva/industrial, responsáveis por alterações nas características dos solos, ficando incapazes de reter a água. Água essa que, iria descendo gradual e lentamente pela terra até chegar aos lençóis freáticos, agora escorre em força à superfície, levando consigo nutrientes, acentuando a erosão, e, privando os lençóis freáticos de renovação.

Infraestruturas vitais, electricidade e comunicações, cuja publicidade comercial as tem afirmado ao longo do tempo como "as melhores da Europa", deram de si com uma facilidade surpreendente. Evidenciando que os valores elevados pagos pelo cliente na factura mensal, não se destinam à qualidade do produto em si, mas sim às mais valias das empresas nos mercados financeiros.

Os acessos terrestres, rodoviários e ferroviários, pejados de detritos e estilhaços que impedem a circulação, revelam que árvores a poucos metros da via, é capaz de não ser boa ideia, por muita pressão que a indústria de celulose faça sentir. Mas, quem manda, pode.

Finalmente, a inépcia do estado em prestar apoio atempado e suficiente às populações afectadas. Antes do desalojado ter um saco cama para dormir e uma garrafa de água para beber, o governo já tinha anunciado milhões de Euros disponíveis, mesmo sem recorrer aos fundos europeus de emergência previstos para o efeito. Sim, bastou a promessa de dinheiro, essa abstracção mágica que resolve, para sossegar tudo e todos.

As vítimas do Katrina, tiveram quatro dias para reflectir se estavam entregues a si próprias ou não. As vítimas da Cristina, exclusivamente culpada de tudo isto, não tiveram direito a esse tempo de reflexão. Puserem-lhes imediatamente um prato à frente atestado com promessas de milhões. Quando há promessas de milhões, não há memória de fragilidades. Tudo resistiu e funcionou.




22/01/2026

Jornal Torrejano – Nº 1223 - DDD (Declínio/Degradação/Decadência)

Jornal Torrejano – Nº 1223 – 23/01/2026

DDD (Declínio/Degradação/Decadência)

Embora existam forças com muito interesse em que a crítica seja interpretada num plano gratuito, a sua ilustração fundada em factos nega naturalmente essas tentativas. Desde algumas décadas a esta parte, a dinâmica cultural em Torres Novas é inexistente ou, numa hipótese optimista, débil, anémica. Não é exclusivo da cidade ou do concelho. O facto verifica-se numa geografia um pouco mais alargada.

Recuando trinta e cinco anos, genericamente num eixo entre as cidades de Tomar e Torres Novas, contavam-se mais de duas dezenas de projectos de música original activos. Mais de vinte bandas a compor, ensaiar, actuar, gravar. O livro Sons Primitivos (1994, edições  Geminis), autoria de Fernando Ventura, confirma esta realidade e ilustra-a com curtas biografias de quinze desses projectos. O livro Nós Queríamos Ser Artistas (2015, edições Âmago da Questão), autoria do historiador João Carlos Lopes, embora dedicado a uma cronologia mais alargada e âmbito geográfico mais específico, faz o mesmo, contabilizando bem mais de quinze. Hoje, mesmo sendo generoso na contagem, não consigo chegar à dezena. Apertando a malha e excluindo projectos virtuais, bandas de Facebook, e bandas exclusivamente activas para tocar em eventos organizados pela Câmara Municipal, uma ou duas vezes por ano, ficam quatro. Se filtrar ainda mais e procurar apenas bandas cujos elementos tenham menos de quarenta anos de idade, fica uma. Talvez duas.

Usando o mesmo valor para a janela de recuo no tempo, trinta e cinco anos, pergunto aos jovens com essa idade: No vosso tempo de vida, quantas exposições de fotografia se recordam de acontecer em Torres Novas? E exposições de pintura? E concertos de bandas de música original, nativas do concelho? E exibições de cinema? E instalações de arte estática, dinâmica, de rua, performativa, multimédia, interactiva, contemplativa...? Em mais de três décadas, com tanta feira festa e festarola, devem ter ocorrido umas quantas, não?

Pois.

Aparentemente, nós portugueses, não temos grande problema a gerar excelência na literatura. De Camões, Eça, Pessoa, até ao mais cronologicamente recente prémio Nobel de Saramago, é justo julgar Portugal como berço de grandes poetas, romancistas, escritores. No entanto, a média dos hábitos de leitura dos portugueses oscila entre zero e três livros por ano. Geramos excelência na produção mas falhamos redondamente na criação de consumidores. A massa crítica que viabiliza a sustentabilidade, fica completamente fora do alcance. Eternos dependentes de mecenato e subsídios.

A vulgaridade da frase "Portugal é Lisboa e o resto é paisagem", pareceu posta em causa ali por finais de '80 e toda a década de '90. Aconteceram autoestradas, ensino superior no interior, telemóveis, internet. As distâncias, tempos e custos encurtaram, as coisas passaram a estar ao alcance. Tudo indicava que todo o país era agora Lisboa. Mas não. Faltou trabalhar as mentalidades. O provinciano conhece os cantinhos todos do centro comercial Colombo e do estádio da Luz, já trata a segunda circular por tu, mas nunca entrou no Dona Maria para assistir a uma peça de teatro. Para ele, Motel X, Doc Lisboa, Indie Lisboa, são nomes sem significado. Real Companhia Dos Animais, República da Música, Lisboa Ao Vivo, também. A autoestrada, o custo do combustível e portagens, são exactamente os mesmos para qualquer um destes destinos versus um estádio de futebol ou centro comercial, não mudam. O provinciano também não mudou.

Daí ser de extrema importância não deixarmos passar em claro as iniciativas de âmbito cultural que ocorrem espontaneamente em Torres Novas. Quem as põe de pé, consegue-o à custa de grande sacrifício pessoal. Corre riscos, angaria meios, mobiliza pessoas, combate a indiferença e mentalidades. Seja pintura, música, cinema ou outra expressão artística qualquer, são eventos merecedores de respeito e atenção. Por não possuírem o glamour do arranca pára de uma segunda circular, são mais baratos. De borla até.

Reunindo várias pessoas no mesmo sítio, num contexto cultural, num ambiente informal e descontraído, do convívio social resultante, pode ser que surja a discussão acerca do declínio que descrevo atrás. Pode ser que as pessoas saiam de lá a reflectir acerca dos porquês de tal ter acontecido. Pode ser que cheguem a conclusões. Pode ser que as mentalidades mudem. E então... tudo mudará.

Perigosa, essa tal de cultura.




08/01/2026

Jornal Torrejano – Nº 1222 - Silvester

Jornal Torrejano – Nº 1222 – 09/01/2026

Silvester

A primeira corrida de S. Silvestre aconteceu no Brasil em 1925. Assinala a data do falecimento de S. Silvestre, o trigésimo terceiro Papa, em 31 de Dezembro de 335. Foi durante o seu pontificado que terminou a perseguição romana aos cristãos. Um jornalista brasileiro testemunhou uma prova nocturna de atletismo em Paris, aberta a amadores e profissionais, onde cada atleta levava uma tocha acesa na mão. Por algum motivo ficou impressionado e, decidiu iniciar algo idêntico no Brasil, associando o evento à efeméride cristã. Desde então, pegou a moda e disseminou-se pelo mundo inteiro. No entanto, o vínculo de contexto foi-se perdendo. Do dia 31 de Dezembro, alargou-se a janela temporal para todo o mês de Dezembro estendendo-se até Janeiro já no ano seguinte. Admitindo-se corrida nocturna, diurna, crepuscular. Ou seja, a qualquer hora. E sem tochas. Embora totalmente desvirtuada, a mais ou menos prova de atletismo, mais ou menos no fim de ano, mais ou menos nocturna, continua a chamar-se corrida de S. Silvestre.

Em Torres Novas, a corrida de S. Silvestre acontece no fim de semana que precede o Natal, no período da tarde. No fim de semana em que ocorrem os almoços de Natal das empresas, quando as famílias separadas pela geografia um ano inteiro se reúnem, quando o cidadão comum se atarefa com as compras de Natal, no período de férias escolares, é a altura ideal para impedir a circulação automóvel, cortar ruas, fechar caminhos, dificultar acessos. Brilhante. A coroar a orgia de imbecilidade, a polícia presente no terreno, só sabe que não se pode circular por ali. Exclusivamente isso, nada mais que isso. Que alternativas o cidadão tem para chegar ao seu destino, quais as rotas possíveis de tomar, evitando andar em círculos, deparar-se repetidamente com ruas cortadas, excede as suas competências. Brilhante. Pessoal civil capacitado para prestar auxílio, dar esclarecimentos, orientar o cidadão, sinalética vertical temporária, não, nada. Fosse da Câmara Municipal, fosse da organização do evento, voluntários até, qualquer coisa... não. Não existe nada.

Porque é que um evento destinado a assinalar uma efeméride católica na data de 31 de Dezembro, ocorre no dia 20, duas semanas antes, a 5 dias do dia de Natal? Porque é que uma corrida que se supõe nocturna, principal característica diferenciadora da mesma, acontece à tarde? Porque é que o traçado não é ponderado de forma a evitar disrupção na vida dos cidadãos? Porque é que fazer coisas bem feitas, com atenção ao detalhe, vocacionadas para o enriquecimento da vida quotidiana, ao invés de incrementar stress e chatices, se revela impossível?

Tornar público com antecedência que ruas vão estar cortadas, e o cidadão que se desenrasque a descobrir como vai conseguir ir do ponto A ao ponto B, é de um desdém incrível. Não é o cidadão que tem de conhecer de memória todas as ruas e possibilidades de circulação em determinada cidade. Especialmente se vem de Faro ou Bragança e visita Torres Novas uma vez por ano.

Assim se defende e protege o comércio local, assim se promove a marca Torres Novas, assim se cuida do bem estar do cidadão. As pessoas primeiro, dizem eles. Certo.




22/12/2025

Jornal Torrejano – Nº 1221 - Nossa senhora da energia elétrica

Jornal Torrejano – Nº 1221 – 19/12/2025

Nossa senhora da energia elétrica

Actualmente demonizamos os combustíveis fósseis e idolatramos a electricidade. A poluição, a destruição do planeta, adquiriram protagonismo mediático e a engenharia de manipulação não tardou em tomar as rédeas. Mas os factos, despidos de propaganda, apontam para problemas igualmente graves nas opções eléctricas. Tanto o fabrico como o fim de vida dos dispositivos eléctricos revelam-se tão poluidores, ou mais, que o petróleo nas suas diversas formas.
O homem interessa-se pela electricidade há milénios. Desde que foi domada enquanto recurso útil, há pouco menos de dois séculos, o problema do seu armazenamento nunca foi verdadeiramente ultrapassado. A rede de distribuição eléctrica baseia a sua mecânica de funcionamento num equilíbrio, o mais apurado possível, entre a produção e o consumo. A electricidade que consumimos neste momento, está a ser produzida neste momento. Um piparote neste equilíbrio resulta num apagão, como o de há pouco tempo atrás. Depois desse "abre olhos" (fragilidade prevista com muita antecedência pelos especialistas, a que as empresas e políticos fizeram orelhas moucas), a rede está a ser agora reestruturada pela Europa toda de forma a garantir a restrição das zonas afectadas em caso de falha. A única forma de armazenamento de energia eléctrica, as baterias, tem uma autonomia curta, tempo de vida útil também ele curto, descarregam mesmo sem serem utilizadas, demoram a carregar e quando carregadas parcialmente ficam viciadas com facilidade. Podemos observar esta ineficiência no electrodoméstico mais popular da época, o telemóvel. Podemos observar esta ineficiência nos carros eléctricos encostados à berma da estrada ou nas longas e lentas filas para o posto de carregamento. Daí o petróleo teimar em manter-se como a principal opção.
Várias tecnologias de produção de energia "limpa" foram desenvolvidas com a finalidade de alimentar a rede eléctrica. A eólica e a solar são as de maior protagonismo. Ambas obviamente dependentes das condições metereologicas, não garantem produção contínua fiável no paradigma produção/consumo a tempo real. Outros aspectos destas tecnologias também colocam entraves sérios. O elevado custo de fabrico e instalação dos equipamentos, a manutenção frequente, as largas áreas necessárias para a exploração, o impacto ambiental, a baixa rentabilidade resultante, são problemas relevantes. Há quem seja de opinião que se deve continuar a investir no desenvolvimento, de modo a atingir um ponto óptimo algures no futuro, há quem defenda que é um desperdício de recursos, deve-se explorar outras soluções.
Ainda nos factos despidos de propaganda, a maior "solar farm" dos Estados Unidos, instalada no deserto de Mojave na Califórnia, vai ser desactivada em 2026. Os motivos da desistência, são precisamente a baixa rentabilidade e o impacto ambiental.
No Canadá, na falta de um deserto, actualmente estimula-se o conceito de "agrivoltaic", que consiste no aproveitamento dos terrenos das "solar farms" para cultivo de espécies vegetais tolerantes à sombra, numa tentativa de rentabilização dos projectos. Os painéis solares, além da sombra, impedem uma dispersão saudável da água da chuva pelos terrenos, a água que escorre cria valas de caudal significativo (ou terão de ser feitas, para garantir escoamento, mantendo a integridade do terreno evitando deslizamentos), condicionando grandemente a fertilidade do solo pela distribuição desequilibrada da humidade. A degradação da biodiversidade nos sítios das "solar farms" e áreas limítrofes é significativa, as aves são particularmente atingidas. A manutenção frequente para limpeza dos painéis solares, implica produtos poluentes e elevado consumo de água (painéis com película de pó, tornam-se ineficientes), e, os próprios painéis podem libertar elementos químicos poluentes para o solo. O desenvolvimento económico local proporcionado, é residual, resume-se a poucos postos de trabalho indiferenciado, afectos à manutenção. Os serviços especializados, que incrementam valor, serão sempre fornecidos pelos fabricantes dos equipamentos. Existem de facto, uma série de questões pertinentes que a propaganda verde convenientemente oculta. Na realidade, este caminho só é apetecível por causa dos incentivos, apoios, isenções, financiamentos com juro baixo ou a fundo perdido. Sem nada disso, seria mau negócio.
Além disso, se a produção de energia limpa, verde, tem algum tipo de custo ambiental, seja ele qual for, já não é verdadeiramente limpa nem verdadeiramente verde.
Felizmente, temos actualmente um presidente de câmara cuja formação académica é precisamente nesta área, o ambiente. O município fica assim devidamente capacitado para resistir às pressões dos interesses económicos de oportunismo. Possuindo o know-how adequado para reflectir e ponderar de forma equilibrada os prós e contras, pode tomar decisões acertadas, em defesa do ambiente, em defesa dos interesses da população.
Ou não.
Uma cunha para entrar na Opus Dei dá sempre jeito. Há comunistas com trajectos curiosos.



21/11/2025

Jornal Torrejano – Nº 1219 – Sal e azar

Jornal Torrejano – Nº 1219 – 21/11/2025

Sal e azar

A geração de transição, a última a sacrificar a sua vida à ditadura, a que entregou a melhor fase da capacidade produtiva à guerra, à realidade do analfabetismo, iliteracia, mortalidade infantil ao nível do terceiro mundo (faziam-se dez filhos para sobreviverem dois), agricultura de subsistência, escravidão fabril, feudalismo empresarial e, concebeu os seus filhos pouco antes da queda do fascismo, está a desaparecer. Os filhos, nascidos ainda em ditadura mas, demasiado novos para terem percepção das diferenças entre o antes e o depois, cresceram num ambiente de paz, desenvolvimento económico, acesso a educação, a cuidados de saúde, a informação entretenimento e cultura, sem censura, com liberdade de expressão. Esses filhos construíram uma vida digna, onde apenas um salário seria suficiente para assegurar a sobrevivência e bem estar da família. Com dois salários, casa própria, um ou dois carros, filhos a frequentar o ensino superior, duas semanas de férias por ano num destino turístico longe da sua residência, outras duas semanas de férias com despesas um pouco mais contidas, mais um ou outro luxo consumista pontual. O fascismo que, reservando para as elites, roubou a hipótese de tudo isto às gerações anteriores, a democracia que permitiu tudo isto às posteriores, são apenas palavras escritas em livros que nunca leram. A corrupção generalizada onde, dois presuntos e uma talha de azeite (uma pequena fortuna para a maioria da população), talvez livrasse do serviço militar obrigatório e, consequentemente da guerra, os dois filhos que medraram, todo um sistema fiscal e tributivo que funcionava exclusivamente a toque de oferendas, licenças e autorizações eram favores igualmente pagos com prendas e atenções, os rancores e caprichos saciados com denúncias falsas à PIDE, cujo sadismo, digno da santa inquisição, não hesitou em destruir famílias, vidas, tudo isto não fez parte da sua realidade. O que os pais e avós lhes contavam, foi há muito esquecido, abafado e diluído no frenesim de ostentação e consumismo induzido pela gaiola dourada. Daí, hoje votarem sem peso na consciência, sem sentimentos de culpa, em partidos políticos com tiques totalitários. Sem perceberem o insulto cuspido na cara da sua própria ascendência.

Abraçando a liberdade democrática no seu todo, seria hipocrisia subverter os valores mediante conveniência. Podem proferir barbaridades insultuosas, devemos preservar o direito de o fazerem. Escolho a justificação da ignorância à da irresponsabilidade.

Dois fulanos correm a fugir de um leão. Um diz para o outro: Força! Temos de ser mais rápidos que o leão! O outro responde: Não. Só tenho de ser mais rápido que tu.

Pouco nós e muito eu. Incompatível com discursos declarações e ideologias. Mantém-se a tradição da obtusidade, quando o necessário seria articulação e concertação, útil para o todo. Os efeitos colaterais pedagógicos seriam bónus. Os últimos trinta anos da história autárquica ilustram vividamente que oportunidades perdidas jamais são recuperáveis. Facturas caríssimas, com o custo a cair na conta do narcisismo.

Enquanto se joga xadrez pelo acesso ao tacho, concede-se gratuitamente o poder de decisão a agendas incógnitas. O começo não está a ser auspicioso.




06/11/2025

Jornal Torrejano – Nº 1218 – Da evolução das espécies

Jornal Torrejano – Nº 1218 – 07/11/2025

Da evolução das espécies

No início dos anos noventa do século passado a Internet deu os primeiros passos em Portugal. Primeiro pela comunidade científica e académica, depois, muito rapidamente, expandiu-se às empresas e cidadãos comuns. Como em tudo que é novidade, houve cépticos a par de entusiastas. Muito antes das redes sociais se insidiarem nos hábitos quotidianos, existia uma boa fatia da população que já não vivia sem internet. As potencialidades de um meio de comunicação a tempo real, foi desde cedo instrumentalizado para abreviar distâncias, tempos de espera e, intermediários. O choque que provocou nos meios de comunicação social ainda não terminou. Uma revolução em curso.

Como Darwin pensou, não é o mais forte que sobrevive. É o que se adapta melhor. E mais rápido.

A presença on-line passou a ser obrigatória para a generalidade das instituições. Se não está na Internet, é porque não existe. A face visível das empresas deixou de ser a loja a oficina ou o escritório e, passou a ser um website. Este facto tornou-se ainda mais relevante para os órgãos de comunicação social, todos eles. Televisão rádio e jornais, adaptaram-se ao novo meio dando continuidade ao cumprimento da sua função. A turbulência que persiste, prende-se com a monetização dos conteúdos. Como obter retorno financeiro de algo cujo acesso é pago pelo cliente ao operador (ISP, Internet Service Provider) e não a quem produz os conteúdos? O café é mais caro se o cliente ler o jornal que está em cima do balcão? Como adaptar os modelos de sustentabilidade tradicionais, patrocínios e publicidade, a esta nova realidade? Como assegurar direitos de autor? Como garantir a segurança e idoneidade de operadores e utilizadores? Como aplicar legislação nacional num universo internacional, sem fronteiras? Como impedir a subversão de um meio que se pretendia, na sua génese, verdadeiramente livre? Algumas destas perguntas já vão tendo resposta, mas, no seu todo, os métodos e processos permanecem muito dinâmicos e fluídos. Frágeis. Nada é definitivo.

Uma rápida consulta a alguns dos websites de instituições torrejanas é deveras esclarecedora acerca da importância atribuída à presença na Internet cá pelo burgo.

A julgar pelo seu website, a Banda Operária Torrejana (BOT) é, aparentemente, uma escola de música em exclusivo. Rigorosamente informação nenhuma acerca da história e actividade, passado presente e futuro, da banda em si. Apenas e só, a escola de música. 

A rádio local, Torres Novas FM (TNFM), revela que, a grelha de programação inclui programas produzidos e/ou apresentados por colaboradores já falecidos. Um desrespeito incrível pela memória de colaboradores que, provavelmente, deveriam ser homenageados ao invés de insultados. Na secção de notícias, a notícia mais recente data de 2019. Manter a posse da frequência não constitui definição para uma rádio.

A presença on-line da biblioteca municipal (Gustavo Pinto Lopes) é... curiosa. Existe no instagram, existe no facebook, em duplicado. Um perfil activo, outro sem actividade visível, há anos. É referenciada na rede nacional de bibliotecas (link para o catálogo da rede municipal de bibliotecas), é referenciada no website da câmara municipal (o mesmo link para o catálogo da rede municipal de bibliotecas) mas, não possui domínio próprio. Não existe um website proprietário para a biblioteca. Numa instituição cuja actividade não se resume a disponibilizar livros à população, hospedando vários eventos públicos por ano, é no mínimo curioso. Alguém tem a opinião que a vida virtual se resume às redes sociais.

O rancho folclórico de Torres Novas, não tem website próprio. Está presente no facebook e, tem um blog. Onde a mais recente publicação data de 2012Se calhar é melhor ir lá alguém ver se estão bem.

Os websites do museu municipal (Carlos Reis) e da Central do Caldeirão são... exactamente o mesmo. E, está hospedado num subdomínio da câmara municipal. A Central do Caldeirão aparenta assim, ser a mesma coisa que o museu municipal. E, ambos aparentam ser meros departamentos da câmara municipal. Coisa que não acontece com o Teatro Virgínia, por exemplo.

O Clube Desportivo de Torres Novas (CDTN), tem presença no facebook, no instagram e, tem website próprio. "Em construção" desde 2016. Sem qualquer alteração entretanto e, sem qualquer tipo de informação institucional além da data da fundação do clube. História, actividade, passada presente futura, palmarés, modalidades, calendário, captação... nicles. Aqui, também alguém é de opinião que a vida virtual se resume às redes sociais. Se calhar, o mesmo alguém.

Terminei o périplo por aqui, não fui verificar as funcionalidades dos sites nem fui validar links. O impacto de uma imagem pública caracterizada pelo desmazelo, um desdém óbvio pelos utilizadores, afastou-me. Se quem tem o dever de cuidar, não cuida, não é ambiente onde me sinta confortável. Esta é, resumidamente, a imagem institucional on-line de Torres Novas.

A iliteracia digital não justifica tudo. A presença on-line atamancada de várias instituições torrejanas, na soma das partes, configuram um cenário de negação da realidade, que se vem afincadamente afirmando nesta geografia. Incompetência, desleixo, falta de carácter, não são só bem-vindos, são premiados. Darwin estava errado, só a subserviência importa. A evolução das espécies também nos presenteou com uma espécie de peixe baptizada de Peixe Palhaço (Amphiprion). Animal decorativo.




17/10/2025

Jornal Torrejano - Nº 1217 - O universo num grão de areia

Jornal Torrejano – Nº 1217 – 17/10/2025

O universo num grão de areia

Somos um povo granular. Se há algum denominador comum no nosso comportamento, é esse o mais evidente. Por defeito, permanecemos divididos em pequenos domínios e, apenas pontualmente, mediante grande pressão, somos capazes de união num bloco sólido.

Nos grandes agentes aglutinadores da sociedade, instituições públicas de grande dimensão e mundo corporativo, são visíveis as quintas e quintinhas. Pequenos reinos, pequenas áreas que, embora inseridos numa máquina maior com a qual obrigatoriamente interagem, cultivam uma atitude que entendem exclusiva de si próprios.

Na composição geográfica do território, pode ser interpretado comportamento idêntico. Cidades inteiras manifestam uma atitude celular perante a distribuição territorial. Coimbra vai à Figueira da Foz exclusivamente uma vez por ano, por motivos de uma tradição estudantil. De resto, não passaria pela cabeça de ninguém em Coimbra proferir frases como: E se fôssemos almoçar à Figueira? Eu e a minha família passamos as férias de verão na praia da Figueira. Vamos beber um copo à Figueira? A Figueira da Foz é destino para tudo isso, e mais, para o resto do mundo, excepto Coimbra.

Diversas cidades de dimensão significativa, próximas da costa, apontam os seus destinos de lazer habituais, para longe. Em casos extremos, quando visitamos essas cidades, não tropeçamos num único indício revelador da proximidade dos paraísos que a rodeiam. Alguns ao alcance de uma saudável caminhada. Perguntando aos locais onde gozam as suas férias, respondem centenas milhares de quilómetros de distância. Então e a praia aqui ao lado? Ficam com um ar de incompreensão como se tivéssemos passado a falar em sânscrito.

Os complexos de inferioridade resultantes de uma população rústica, estigmatizada pela ignorância e pobreza, impostos pela ditadura fascista, desabrocha numa necessidade urgente de vivência cosmopolita, associada com frequência á ostentação de poder económico, nem que seja apenas aparente. São rituais vinculativos a ideais de modernidade sucesso superioridade. Construídos com presunções e pressupostos é certo, mas perfeitamente capazes de proporcionar o reconforto psicológico em falta. Dado o tempo suficiente, há de passar. Penso.

Talvez a tendência granular esteja inscrita no nosso DNA. A repressão secular da igreja a monarquia a ditadura, não tenham tido o protagonismo que lhes atribuo na formatação comportamental lusitana. Mas a questão mantém-se independentemente da origem, prejudica o presente, transitório ou não. Desdenhar as mais valias em carteira é má gestão. Delapidar essas mais valias é suicídio. Como as boas práticas de gestão e o bom senso alertam, a descapitalização é uma ladeira íngreme e escorregadia. Caminho ilógico, compromete a sobrevivência. A não ser que seja intencional e sirva outros propósitos.

Na realidade actual, um mundo pós política, as ideologias agonizam no seu último reduto, o espaço académico. Meras abstracções em exercícios intelectuais. Extintas as ideologias na prática política, por efeito de cascata desaparecem igualmente da orientação governativa. O conceito de organizações sociais opostas (direita / esquerda) tornou-se obsoleto. Na nova realidade não existe duelo entre governo e oposição, apenas problemas para resolver, acordos para negociar. A adaptação da governação ao paradigma corporativo dispensa qualquer mecanismo de transição. Sem sobressaltos, sem ninguém dar por nada, já está feito. E é aqui que a postura granular se pode revelar fatal para o bom funcionamento da máquina maior.

A actualidade autárquica enfrenta um problema impossível. Nunca haverá condições financeiras suficientes, para repor, inverter, recuperar, compensar, as asneiras irresponsáveis de trinta anos de desdém. Mesmo com financiamentos externos e endividamento gigantesco à banca. Nunca. Foram muitas asneiras e muito caras. Daí, ser péssima ideia alguém prometer que esse é o caminho a seguir. O que está feito, está feito. O melhor que podemos esperar será, travar a espiral descendente caótica de más decisões e, remendar o que for possível remendar. Emendar, embora seja uma ideia agradável, é irreal. Esperançosamente, que apareça, finalmente, liderança.

A postura granular colocou-nos onde estamos hoje. Urge mudar a postura. Ora aí está um desafio político de valor. Uma promessa que faz sentido.